sexta-feira, dezembro 21

Pó doce

Agora a Pó dos livros está mais doce, com as Memórias de Açúcar em forma de bombons artesanais e compotas, à venda no nosso café.




segunda-feira, dezembro 17

Bibliófilos bichos



Quem trabalha com livros tem que estar preparado para tudo.
Hoje uma senhora muito simpática, de sorriso nos lábios, dirige-se ao balcão:
- Venho ter convosco para me resolverem um problema.
- Faça favor, estamos cá para isso.
- Eu comprei nesta livraria um livro e queria saber como o posso desparasitar?
Os outros clientes que estavam junto ao balcão riram em uníssono e sem pudor.
Nós fizemos uma cara séria e profissional, afinal de contas aquela era uma pergunta pertinente. 
A verdade é que vendemos livros antigos e alguns, raramente, mas acontece, trazem bicho. O que podemos fazer... Bem, profissionais como somos, não deixámos de dar resposta à cliente. Assim, aqui vai para quem quiser saber, a receita para nos vermos livres dos bibliófilos bichos e, ao contrário do que se possa pensar, não é com nenhum produto químico (existem vários), mas sim de uma forma muito natural: pega-se no livro, embrulha-se muito bem em plástico e coloca-se no congelador de um dia para o outro. Simples, mas eficaz. E sim, estamos mesmo a falar a sério.

quarta-feira, dezembro 12

2 x Pó


No próximo fim-de-semana a Pó dos livros divide-se em duas. Uma parte fica onde está, a outra com livros, livreiros e pó vai passear até ao Centro Cultural de Belém, para participar no Mercado do CCB. Assim, nos dias 15 e 16 de Dezembro, estamos em duas pontas da cidade -  Avenidas Novas e Belém - é só escolher.
Na Marquês de Tomar, o Carlos e o Jaime estão mais do que a postos para ajudar a escolher os livros que procuram e, se necessário, fazer os embrulhos mais bonitos de Lisboa inteira. Não esquecer que há um café com cadeiras e mesas para descansar e ler um pouco entre compras.
No CCB, a Isabel e a Débora levam uma selecção de livros escolhidos, não a dedo, mas a gosto: livros da & Etc., Sistema Solar, Documenta, Livros de Areia, Montag, Pianola, Dois Dias Edições, Campo das Letras, Gatafunho, Vega, Orfeu Mini, Bizâncio, Colares Editora, o Livro B e os Clássicos de Bolso da Estampa, os livros vintage da Pó, também os cadernos da Serrote, jogos e outras surpresas. Aqui ficam algumas imagens para aguçar o apetite aos visitantes do Mercado.

Mercado do CCB - mercado de livros, discos e filmes : dia 15 de Dezembro das 10h00 às 24h00 e dia 16 de Dezembro das 10h00 às 18h00. 

                                                
                                                
                                      
                                                 

sexta-feira, dezembro 7

Compras de Natal



Lembramos que a Pó dos livros está agora aberta aos domingos e feriados, das 10h00 às 19h00.

Pequeno Livro das Coisas

(clique na imagem)

Na próxima segunda-feira, 10 de Dezembro às 18h00, teremos na Pó dos livros o lançamento do livro infantil Pequeno Livro das Coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano (ilustração), edição Caminho. Andreia Brites fará a apresentação.

Estará também patente uma exposição/venda das ilustrações de Rachel Caiano.

segunda-feira, dezembro 3

Um novo milagre




A humanidade anda há milhares de anos a tentar encontrar respostas para perguntas como: será que Deus existe? será que Deus não existe? a minha alma é imortal? será que tenho alma? existe vida depois da morte? Para alguns as respostas já foram dadas, para outros nem por isso. Eu que sou descrente acho que o problema não está nas respostas (demasiadas respostas), mas sim nas escassas perguntas e os mortos parecem-me tão, irremediavelmente, mortos. Bem, mas isto dava outra história.
O que me traz aqui hoje também tem a ver com a religião, mais propriamente com a fé, a fé em Fátima, essa localidade que atrai tanta gente, cheia de segredos, milagres e muita ignorância. E foi exactamente por causa de Fátima que uma turista brasileira entrou na livraria:

- Por acaso, você não terá aí um guia sobre Fátima? Quero tanto conhecer!
Pensei que teria qualquer coisa, mas antes de conseguir encontrar o livro a cliente acrescenta:
- Desculpe, mas tem que ser um guia que tenha alguma coisa escrita sobre o túmulo de Nossa Senhora.
- O túmulo de Nossa Senhora!?... – Pergunto eu incrédulo.
- Sim, o túmulo da Virgem Maria.
- Mas, mas… não sabe? Nossa Senhora subiu aos céus. – Balbuciei na esperança que a cliente percebesse.
Mas a cliente, empolgada, exclama:
- Quando… mas quando!?... Quando é que se deu esse novo milagre que eu não sei de nada, não!?...

quinta-feira, novembro 29

O Dia das Livrarias



Amanhã é o Dia das Livrarias e porque uma livraria não existe sem livreiros:

Livreiros?... Quando digo “livreiros” não me refiro às pessoas que casualmente ou temporariamente vão vendendo livros um pouco por toda a parte (sem qualquer tipo de desconsideração para com estas). Os livreiros, e eu conheço alguns, são aqueles que adoram livros, conhecem muitos livros e lêem outros tantos, mas são sobretudo aqueles que, por passarem tanto tempo manuseando livros, se começam a confundir com eles. São como os casais, cujo fácies, após tantos anos de casamento, se assemelha. – Estão a ver? Um livreiro é praticamente um livro, ou melhor, bocadinhos de muitos livros. Não dos novos, os de quinze minutos de fama, mas daqueles com folhas amareladas, fechadas que se abrem com uma faca especial e que fazem comichão no nariz, do pó que levantam. Daqueles que as traças (mais conhecidos por peixinhos-de-prata) sabem que são melhores para alimento, ou que, como dizia George Orwell, os tais onde as moscas azuis escolhem para morada eterna. Os livreiros, porque já não se vendem, só raramente se encontram nas prateleiras das livrarias. Porém, quando os encontramos, dificilmente passamos sem os consultar. Se os abrimos a surpresa é grande: cheios de histórias para contar, deles, dos outros e dos livros. Pode ser uma pequena estória, um diálogo que ouviram, um poema que leram, um aforismo muito antigo, lido e repetido em tantos livros que deixou de ter dono e passou a ser deles. Normalmente são cultos, não tanto pelo que lêem, embora leiam muito; mas muito mais pelo que ouvem. - Só provavelmente num confessionário ou num bar se ouve mais. Os livreiros são aqueles que melhor têm a noção da futilidade ou da importância dos livros. Sabem que os livros também são uma mercadoria que se compra e se vende e de que eles próprios, livreiros, fazem parte. Os livreiros são livreiros porque têm uma dupla finalidade, uma delas é pública, a outra é, muito secretamente, pessoal. A pública é a de vender livros, incentivar a leitura e divulgar o livro, fazendo-o ao partilhar com os outros as suas próprias leituras, organizando tertúlias, eventos literários, cursos, etc. A outra, como dizia um editor meu conhecido, no fim da sua vida: «Eu errei sucessivamente de profissão, o que eu queria era estar junto dos livros para poder ler o que me apetecesse.»

Jaime Bulhosa

Dia das Livrarias




Numa organização da Associação de Livrarias de Espanha, que conta com o apoio do Colégio de Escritores desse país, assinala-se no dia 30 de Novembro o Dia das Livrarias.

Fundação José Saramago, em parceria com o movimento Encontro-Livreiro, transporta esta ideia para Portugal e convida todos os livreiros a associarem-se a ela, fazendo do dia da morte de Fernando Pessoa um dia de vida, para que as livrarias se encham de visitantes, contrariando a tão real crise que leva tantos a temer o fecho iminente desses espaços de cultura.

Todos os livreiros estão convidados!


Na página da Fundação José Saramago, emhttp://www.josesaramago.org, e no blogue do Encontro-Livreiro, emhttp://encontrolivreiro.blogspot.pt, apresentaremos os nomes de todas as livrarias que se associarem a esta ideia, bastando para o efeito enviar um e-mail de adesão para os seguintes endereços info.pt@josesaramago.org e encontro.livreiro@gmail.com.

Todos os dias são bons para visitar uma livraria.
Não permita que as livrarias se transformem numa «espécie em vias de extinção»!

quinta-feira, novembro 22

Conferências Falsas na Pó dos livrvros

(clique na imagem)

Na próxima quinta-feira, 29 de Novembro, às 18h00, junte-se a  Mário de Carvalho, Pedro Castro Henriques, Manuel Halpern e João Eduardo Ferreira, que estarão à conversa na Pó dos livros. O tema proposto será "Realidade ou Verosimilhança"; o pretexto, o lançamento do novo livro de João Eduardo Ferreira, Contos Adventícios, edição Apenas.

segunda-feira, novembro 19

A Edicare e a Livraria Pó dos Livros apresentam:



Ateliê de Colagens com a ilustradora Débora Figueiredo.
24 de Novembro, às 11 horas, na Livraria Pó dos Livros.
Para crianças maiores de 3 anos.
Venham, vai ser giro!

quinta-feira, novembro 15

Em duas palavras: "im pressionante"



Uma senhora parece muito curiosa enquanto ronda o livro mais vendido do momento, o romântico romance sado-masoquista, ou lá o que é, «As Cinquenta Sombras de Grey». Obra que é constituída, até agora, por “apenas” mil setecentas e quarenta e duas páginas distribuídas por três volumes. A senhora (eu digo senhora, porque era uma Senhora e são sempre senhoras que compram este livro), olha para um lado e para o outro para verificar que não se encontra ninguém por perto e lê, aleatoriamente, algumas passagens do livro. O rosto ruboriza, as pupilas dilatam e uma das mãos tapa a boca aberta de espanto com o que, aparentemente, acaba de ler. - Passagens impossíveis de reproduzir aqui, porque sabemos que crianças e pessoas que têm a bolinha vermelha no canto superior direito dos olhos lêem o nosso blogue -. Depois pega num dos volumes, dirige-se ao balcão, sussurra uma pergunta e põe à prova a paciência de um livreiro:      

- Não é preciso entrar em pormenores, porém, será que me pode contar a história deste livro em duas palavras, sim?

Jaime Bulhosa

sexta-feira, novembro 9

Conversas de livraria



Entra um casal na livraria, o livreiro, talvez um pouco indiscreto, não pôde deixar de ouvir a conversa. A mulher observa os livros com atenção, folheia alguns e manifesta verdadeiro interesse pelos livros, enquanto o homem faz um ar medonho de enfado e boceja perante tanto livro.
- Querida, às vezes custa-me perceber o seu interesse pelos livros e sou obrigado, muitas vezes, a pensar…
- E deve continuar a pensar – interrompeu a mulher, trocista – verá que não é difícil, depois de se habituar.


A Ilha



Rodeado pela azáfama das muitas famílias em férias no Hotel Argentina, em Dubrovnik, Viktor Askenasi, respeitado professor no Instituto de Estudos Orientais de Paris, suporta com dificuldade o calor sufocante do verão na costa da Dalmácia. Perto dos 50 anos, o professor iniciou uma viagem solitária pelo Mediterrâneo, levado por uma preocupação que sempre o agitou, e que o levou, alguns meses antes, a fazer uma mudança radical na sua vida. Apesar de ter encontrado um paraíso de liberdade e de estar disposto a aceitar as consequências das suas acções como um passo inevitável no caminho da realização, Viktor descobre que esta liberdade tem uma outra face imprevista que o desconcerta. Assim, atormentado pela dúvida, num impulso, bate à porta do quarto da desconhecida com quem acabou de se cruzar na recepção do hotel, sem saber se do outro lado da porta o espera a escuridão da loucura ou a luz da verdade.

título: A Ilha
autor: Sándor Márai
tradução: do húngaro por Piroska Felkai
n.º pág.: 155
formato: 15 x 23.5cm
isbn: 978972205096
pvp: 13.90€

terça-feira, outubro 30

Os dois consolados



Dizia um dia o grande filósofo Citófilo a uma mulher desesperada e com grandes motivos para o estar: «Minha senhora, a rainha de Inglaterra, filha do grande Henrique IV, foi tão infeliz como vós: expulsaram-na dos seus reinos; por pouco não parecia numa tempestade em pleno oceano; viu morrer o seu real esposo no cadafalso – tenho muito pena dela, disse a dama», e continuou a chorar os seus próprios infortúnios.
«Mas, disse Citófilo, lembrai-vos de Maria Stuart: amava muito honestamente um jovem músico que possuía uma belíssima voz de barítono. O marido matou o músico na presença dela; e mais tarde a sua boa amiga e parente; a rainha Isabel, que se dizia virgem, ordenou que lhe cortassem a cabeça num cadafalso coberto de panos negros, depois de a ter enclausurado numa masmorra durante dezoito anos. – Isso é tudo muito triste, respondeu a dama», e voltou a cair na sua profunda melancolia.
«Tenho de vos contar, continuou o outro, a aventura de uma soberana que no meu tempo foi destronada depois da ceia, e que morreu numa ilha deserta. – Conheço toda essa história», disse a dama.
«Então vou contar-vos o que aconteceu a uma outra grande princesa a quem revelei a filosofia. Ela tinha um amante, como todas as grandes e belas princesas. O pai entrou no quarto e surpreendeu o amante com o rosto em fogo e os olhos brilhantes como carbúnculos; a dama também parecia muito animada. A expressão do jovem caiu de tal maneira no desagrado do pai que este lhe deu a maior bofetada de que há memória na região. O amante agarrou numas tenazes e partiu a cabeça ao sogro, que a custo se corou e que ainda hoje tem a cicatriz dessa ferida. A amante, desorientada, saltou pela janela e torceu um pé; agora coxeia um pouco, embora tenha uma figura admirável. O amante foi condenado à morte por ter partido a cabeça a um tão ilustre príncipe. Podeis imaginar o estado em que se encontrava a princesa quando enforcaram o amante. Vi-a durante muito tempo quando ela estava na prisão; só me falava das suas desgraças. – por que não quereis então que eu pense nas minhas? Perguntou-lhe a dama. – É porque não se deve pensar nisso, disse o filósofo, e porque vos fica mal desesperar quando tantas damas ilustres foram tão infelizes. Pensai em Hécuba, pensai em Niobe. – Ah, disse a dama, se eu tivesse vivido no tempo delas, ou no das belas princesas, e se lhe tivésseis contado os meus infortúnios, pensais que elas vos teriam escutado?»
No dia seguinte o filósofo perdeu o seu único filho e quase morreu de dor. A dama mandou fazer uma lista de todos os reis que tinham perdido os seus filhos e levou-a ao filósofo; este leu-a, achou-a muito certa mas não chorou menos por causa disso. Passados três meses voltaram a ver-se e ficaram espantados por se encontrarem com tão boa disposição. Mandaram erigir uma estátua ao Tempo com a seguinte inscrição: «àquele que consola.»

Voltaire

quarta-feira, outubro 24

Feira do livro do desenvolvimento


(clique na imagem)

Entre 19 e 26 de Outubro, a Pó dos livros vai estar no CIDAC, com uma mostra de livros sobre o desenvolvimento. Visite-nos.

terça-feira, outubro 23

Hoje na Pó dos livros

Hoje, 24 de Outubro, às 18h30:  lançamento do livro de Daniel Bastos Por dentro de uma Jota - Uma experiência de intervenção cívica e política em Fafe, edição Labirinto. Apresentação por Pedro Delgado Alves.

(clique na imagem)

sexta-feira, setembro 28

Os Primos da América



A aventura d'Os Primos da América é a de gerações de homens e mulheres que atravessam o mar em busca de uma esperança que lhes faltava na sua terra, quer porque ela fosse terra demasiado pobre, demasiado pequena, demasiado atrasada, ou demasiado tudo isso em simultâneo.
Este livro é um livro de História tanto quanto um livro de histórias. De uma História de portugal onde não há lugar para a autocomiseração. Feita de gente como Joe Faria: «- Há portugueses que se queixam. eu digo-lhes: vão para de onde vieram se são infelizes. Eu fui muito feliz aqui. - A vida é dura e Joe Fari, também.»
Ferreira Fernandes terá muito que calcorrear, ao longo das páginas desta admirável viagem, até descobrir Manuel Duarte, «o primeiro falhado assumido que encontrava na América».
À sua maneira, os «primos da América» são todos, de uma forma ou de outra, vencedores. Temos muito a aprender com eles.


edição: tinta-da-china
título: Os Primos da América
autor: Ferreira Fernandes
prefácio: Carlos Vaz Marques
formato: 154.5x 20 cm - encadernado
n.º pág.: 230
isbn: 9789896711290
pvp: 16.20€

segunda-feira, setembro 24

É uma opção



Quando me fazem uma das perguntas mais frequentes numa livraria: «queria um livro para alguém que não gosta de ler», imediatamente penso que é o equivalente a pedirem-me uma cerveja sem álcool, um café sem cafeína ou um cigarro electrónico sem nicotina, isto é, um livro sem enredo, sem personagens, sem sentimentos, sem emoções, sem ideias. O pior é que se abre uma multiplicidade de hipóteses das quais não posso fugir, os livros editados para pessoas que não gostam de ler são, paradoxalmente, a maior fatia da oferta que existe no mercado. Basta passear um pouco por uma grande superfície e verificar a grande quantidade de livros iguais no seu aspecto estético e temático, para perceber que essa é a lei que impera. Não quero parecer elitista ao criticar a opção de se ler esse tipo de livros, é legitimo fazê-lo. Mas sejam quais forem os prazeres de desfrutar de um livro, enquanto objecto que nos permite levitar para outro mundo, esta não pode ser a única abordagem da leitura. Um livro pode, de facto, mudar a nossa vida. Não é o trabalho de um escritor uma espécie de instrumento óptico que é oferecido ao leitor para lhe possibilitar encontrar aquilo que, sem a ajuda do livro, nunca teria conseguido sentir sozinho? Não será um livro a descoberta do eu através dos outros? Já Marcel Proust dizia que é sempre mais interessante citar os outros do que nos citarmos a nós próprios. Para Orhan Pamuk um livro, para além do seu enredo e das personagens, tem que ter uma ideia central, aquilo a que Pamuk chama o centro do livro ou desígnio do livro. A função de um livro não é apenas a de nos dar prazer, ou seja, um analgésico, de efeito efémero, que ajuda a minimizar a solidão ou a passar o tempo enquanto viajamos de autocarro ou de comboio; pode, pelo contrário, criar-nos angústia, medo e dúvida, mas também nos pode dar respostas. Porém, parece que a maioria das pessoas quer apenas um sucedâneo, um placebo, algo que simplesmente as distraia e seja inócuo. É uma opção.

Jaime Bulhosa

terça-feira, setembro 18

Metáfora sem sentido



Não é fita, é verdade, estou triste. A crise, a batota dos mercados, os políticos e as suas políticas estão a tirar-me todo o ânimo. A falta de esperança e a perspectiva de um futuro sem dignidade deixam-me sem panorama nem alento. Às vezes fico sem motivação para trabalhar e imaginação para escrever neste blogue. Pior, parei de ler. Um livreiro que não lê é como um pássaro sem asas, uma criança sem brinquedos ou uma estúpida metáfora sem sentido.
Hoje tive que dar uma notícia difícil a quem trabalha comigo, sem alternativas tivemos que tomar a decisão de abrir aos domingos, como forma de combater esta crise sem paralelo. Pode, à primeira vista, e para quem é cliente, ser uma boa notícia, mas para quem vai ter que trabalhar é, no mínimo, um recuo nos direitos e uma diminuição da qualidade de vida. Por isso, quero agradecer ao Carlos Loureiro e à Débora Figueiredo a forma extraordinária como aceitaram esta medida, sem um lamento ou o mais leve protesto. – E não foi por medo –.

Jaime Bulhosa

Pó dos livros



Esqueça os centros comerciais e as grandes superfícies, onde está um montão de gente que não conhece de lado nenhum. Apoie as pequenas livrarias de rua. Agora também aos domingos a livraria Pó dos Livros estará aberta, todos os domingos, a partir de dia 23 de Setembro, das 10h00 às 19h00. O Carlos, a Débora, a Isabel e o Jaime estarão à sua espera.

terça-feira, setembro 11

Como S.Tomé



A propósito do bestseller mais vendido em Portugal, O Céu Existe Mesmo:
O meu filho mais novo, que estava na livraria comigo, repara no livro sobre a história “real” do menino que esteve no céu e trouxe de lá uma mensagem, lê o título e diz:
- Pai, o céu não existe.
- Ai não, então porquê?
- Porque eu também já lá fui de avião e não vi nada!...

Jaime Bulhosa

sábado, setembro 8

Basta!

 
Talvez influenciado pela música ambiente que passa na livraria, neste momento, o álbum Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco, decidi escrever um pequeno texto de teor político. O blogue de uma livraria não é o espaço indicado para intervenção política. Uma livraria, em princípio, não deve ter cor política, clubista, nem raça, nem credo, nem ideologia. No entanto, não resisto. Com as notícias de ontem dando-nos a boa nova de um corte de 7% sobre os ordenados, sinto-me indignado, ou melhor, vilipendiado, roubado, violentado. Como patrão deveria estar a dar pulos de alegria, com a redução da taxa social única e a pensar comprar já um Ferrari. Todavia, acontece que numa pequena empresa, como a Pó dos Livros e milhares de outras que não têm lucro, tanto os empregados como os patrões vivem do seu escasso ordenado. Se as quebras das vendas eram já de 40%, com estas políticas, o consumo cairá, pelo menos, mais 7%. Estou muito apreensivo quanto ao futuro das empresas, como a Pó dos Livros, que dificilmente sobreviverão a mais esta pancada. Não haverá mais oferta de emprego, como prometido. Haverá, isso sim, muitos (des)empregados e pequenos (ex)patrões na rua a clamar BASTA!

Jaime Bulhosa

quinta-feira, setembro 6

O crítico



- Não tenho pejo em dizer que não gosto de ir pelas massas, nem com o rebanho, por isso, queria que me aconselhasse um livro desses que nunca ninguém leu.
O livreiro faz um sorriso largo que vai de um canto ao outra da boca e diz:

- Bem, nesse caso, abrem-se milhares de possibilidades.

Jaime Bulhosa

500.000



Quando há quatro anos inaugurámos o Blogue da Livraria Pó dos Livros as nossas expectativas eram baixas. Tínhamos a noção de que se tratava de um blogue sobre livros e como tal despertaria pouco interesse. Tínhamos como objectivo dar a conhecer a livraria, a nossa opinião e divulgar o livro e a leitura. Todavia, não queríamos que fosse uma coisa chata, nem pretensioso. Nem sempre o conseguimos, mas tem valido a pena pelo gozo que nos dá fazê-lo. Rapidamente percebemos que afluem à livraria todo o tipo de pessoas, leitores e não leitores, ou melhor, pessoas que lêem por uma necessidade constante de conhecimento e pessoas que lêem apenas por impulso, influenciadas, sobretudo, pelo que é mostrado na televisão. Este último grupo de pessoas fornece quase diariamente um manancial de histórias engraçadas e entretenimento que nós aproveitamos para contar aos nossos leitores. O certo é que o blogue da Pó dos Livros ultrapassou em muito as nossas expectativas, excedendo já o meio milhão de visitas. Parece-nos motivo de orgulho.  

quinta-feira, agosto 30

Escritores de telenovelas



- Queria um romance que fosse mesmo um romance. Nada de Margaridas Rebelo Pinto, nem coisas do género.
Após ter mostrado uma série de romances, mesmo romances, dos bons e dos menos bons, a cliente não gosta de nenhum, nem da Margarida, nem de outras Margaridas com um nome diferente. De repente, sem querer, olho para estante dos romances lusófonos, vejo a salvação e lembro-me de sugerir:
- E que tal este: Gabriela Cravo e Canela, sempre dá para acompanhar a novela que vai passar na televisão.
Resposta inesperada:
- Oh! Que engraçado… terem feito um livro da novela.

Jaime Bulhosa

segunda-feira, agosto 13

Venho para comprar tudo



Encontro-me a ler junto ao balcão, é Agosto, a horas em que a livraria já não espera nem acolhe outro leitor a não ser o seu próprio livreiro. Um movimento inesperado na porta da loja distrai-me da leitura. Entra um senhor de aspecto distinto, muito bem vestido mas de forma antiquada. Sugestionado ou não pelo livro que lia, pareceu-me de repente uma personagem saída de um livro de Edgar Allan Poe ou de Bram Stoker. O homem formula uma pergunta:

- Vende-se bem?

Dadas as circunstâncias, não lhe respondo imediatamente, mas ele insiste:

- Você estaria disposto, se fosse o caso, a vender tudo?

Desconfio. No entanto, dou brilho aos sapatos, arreganho a dentadura, penteio-me.

- Venho para comprar tudo.

Agora sim, presto atenção. Engraxo-lhe os sapatos, etc. Ele continua:

- Tudo depende, evidentemente, do preço. Mas faço-lhe uma oferta generosa.

- Diga, então.

- Dois milhões.

Mentalmente dou pulos, em silêncio dou gritos de alegria. Comprometi-me a vender tudo. Tiro os livros, entrego-lhos, embrulho também os da montra, a caixa, os lápis, as canetas, o cabide. O senhor insiste.

- Eu disse tudo.

- Tudo? O que é tudo?

- Tudo, tal como eu disse.

- As paredes?

- Sim, creio que nos entendemos bem, você fixou o preço e eu não desisti. Eu disse tudo. As paredes, o tecto, o rés-do-chão, o 1.º piso, as outras paredes, os outros tectos, enfim: tudo.

Encolhi os ombros.

- Bom, digo-lhe, sendo assim vou andando. Disponha. É tudo seu.

- Mas onde pensa que vai? Você também faz parte do «tudo», o dinheiro que eu lhe dei, o chão que pisa, o ar que respira, o mundo que o rodeia. Eu comprei TUDO.

Relato de um sonho de livreiro transformado em pesadelo

quarta-feira, agosto 8

Um dia cheio de trabalho



Uma livraria é um local procurado por muita gente que nem sempre tem uma motivação literária.
Ontem, logo pela manhã, uma senhora, dos seus cinquenta e muitos anos, entra na livraria, olha em redor, admira as estantes cheias desses objectos mágicos, intangíveis, que são os livros. Parece gostar do que vê e pergunta:
- Por acaso, vocês aqui na livraria, não conhecem ninguém que alugue quartos?
Não fazíamos a mais pequena ideia, por isso, sugerimos que a senhora perguntasse na papelaria que fica ao nosso lado e que está neste bairro há muito mais tempo. A resposta foi, no mínimo, desconcertante:
- Ah, não! Na papelaria não!... Onde todo a gente faz o euro milhões. Eu sou professora e não quero conviver com gente esquisita.
Está certo. Nós também nos sentimos ofendidos quando nos confundem com uma simples papelaria.

Poucos minutos depois, toca o telefone:
- Está sim, bom dia! Livraria Pó dos Livros, diga por favor.
Do outro lado da linha ouve-se uma voz de homem com sotaque do Porto:
- Bom dia, minha menina. Queria saber se tem um livro muito, muito antigo e que se chama A Fábula de Cristo, um livro, veja lá que disparate, que defende a teoria de que Cristo não existiu.
A livreira, indiferente ao comentário, verifica a existência do livro e responde que sim.
- Isso é bom! Quer dizer… Mas tenho um problema, como sou do Porto como fazemos?
A livreira sem se atrapalhar sugere o envio pelo correio.
- Hum… hum, não sei… Pode ser, mas desde que ninguém fique a saber.

Um pouco mais para a hora do almoço:
- Tem A Bíblia Ilustrada, mas com fotografias de Jesus Cristo e dos apóstolos?

Já pela tarde:
- O que tem de João Aguiar?
- Temos vários, incluindo o último.
- Mas então, o homem não escreveu mais nada desde esse livro? Anda um pouco preguiçoso… Não acha?
- O escritor João Aguiar faleceu em 2010.

Jaime Bulhosa

terça-feira, agosto 7

Atrás do balcão



Um dia uma cliente perdeu o seu porta-moedas. Procurou no balcão nas estantes onde tinha estado a ver os livros, enfim por todo o lado, mas em vão. Avistou então um dos livreiros que passava desviando o olhar, e imediatamente suspeitou que ele lhe tinha roubado o porta-moedas. Com efeito, o livreiro tinha em tudo o comportamento de um ladrão de porta-moedas. A cara, o ar, as atitudes, os gestos dele, o estar atrás do balcão, as palavras que prenunciava, tudo nele revelava, para lá de quaisquer dúvidas, um ladrão de porta-moedas.
Estava a cliente prestes a denunciá-lo, a acusá-lo publicamente e a levá-lo à presença do juiz quando recuperou o seu porta-moedas, que tinha caído no chão ali perto.

Quando voltou a ver o livreiro, este não apresentava o menor indício que levasse a ver nele um ladrão de porta-moedas.

quarta-feira, agosto 1

THE GIRL WHO HATED BOOKS

Quando a realidade ultrapassa a ficção




- Quero um livro que me explique porque é que o meu marido se apaixonou pela sua secretária e porque passa tanto tempo no escritório.
- Com certeza, nós temos tudo. Mas já agora… a qual das secretárias se refere? 

sexta-feira, julho 20

Sabedoria




«Para vencer a loucura ou uma inquietação tenaz, não há nada melhor do que imaginarmos o nosso próprio enterro. Método eficaz, ao alcance de todos. Para não termos de recorrer a ele demasiadas vezes por dia, convém experimentar esse benefício assim que acordamos. Ou então utilizá-lo apenas em momentos excepcionais, como o papa Inocêncio IX, que, tendo encomendado um quadro em que era representado no seu leito de morte, lhe lançava um olhar sempre que precisava de tomar uma decisão importante.»

E.M. Cioran
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quarta-feira, julho 18

O essencial


«Um Poeta disse a um Editor, ao oferecer-lhe uma das suas obras:
- É um poema pequeno, mas a qualidade é que é o essencial. Atrevo-me a pensar que o senhor vai descobrir um pedaço de autêntica Poesia.
Lido o manuscrito, o Editor meteu-o numa gaveta e estendeu uma moeda de dez cêntimos ao Poeta, dizendo-lhe:
- É uma moeda pequena, mas atrevo-me a pensar que se sentirá satisfeito com a sua pureza: olhe que é quase só prata.»

terça-feira, julho 17

Estrelar um ovo






De vez em quando aparecem, na Pó dos Livros Vintage, verdadeiras relíquias, raridades, como é o caso de O Meu Livro de Cozinha, Maria Lourdes Modesto, editorial Verbo que nos deixam nostálgicos e nos levam para longe no tempo. Lembro-me, perfeitamente, da minha mãe usar este livro para ensinar a minha irmã mais velha a cozinhar. Lembro-me também do design das garrafas e das latas de conserva da época. Por exemplo, a garrafa de leite é exactamente igual àquelas que o leiteiro (figura hoje extinta) deixava, todas as manhãs, do lado de fora da porta de minha casa.
Os rapazes, como bem demonstram as fotografias só com meninas que ilustram o livro, estavam proibidos de se aproximar, não fossem as brincadeiras com tachos e panelas, como dizer… amaricar os meninos. Mas naquele tempo era assim, os rapazes deviam manter-se grunhos e machos. Educação machista que teve como único resultado deparar-me, um dia mais tarde, com a dura realidade de não saber estrelar um simples ovo. 

Jaime Bulhosa

terça-feira, julho 10

Pensamento do dia



«Supõe-se que todo o livro tem, pelo menos, dois leitores: o que o escreve e o revisor de provas. Mas claro, não passa de uma suposição.»
--
Livreiro anónimo optimista

segunda-feira, julho 9

Filho adolescente


- Filho, agora que estás de férias passas o dia a fazer o quê?
- Passo o dia a ler.
- Boa, excelente! Não sabia que tinhas ganho o gosto pela leitura?
- Não pai! Passo o dia a ler mensagens de texto (sms).
- Ah!

sexta-feira, julho 6

Personalidade influente


Num dia incerto, após uma sequência esperada e ininterrupta de dias monótonos – decididamente nada ocorre na vida tal como se prevê –, um estranho entra na livraria. Cabisbaixo, com semblante carregado, cambaleando de uma tristeza tão triste, que quase não se lhe ouvem os murmúrios provenientes da trémula boca. O livreiro, ao ver aquele espectro de homem, com pelo menos meia vida percorrida, de cabeça redonda com cabelo arruivado, metade nua e reluzente, contrastando com a tez pálida, cor de defunto, naquele estado desgraçado, visivelmente reflectido nas suas pobres e gastas vestimentas; não pôde deixar de sentir compaixão por ele. – Um sentimento que, como todos sabemos, é comum à maior parte das pessoas. Uma necessidade que nasce dentro de nós e que se revela num impulso exterior, de um altruísmo incontrolável, na tentativa de aliviar o sofrimento dos outros, sem pedir nada em troca. – De imediato, o livreiro ampara-o entre os braços, disponibilizando-se para o ajudar no que fosse necessário, e antes mesmo de saber o teor dos seus lamentos exclama: «Oh, pobre homem… que Deus Nosso Senhor o ajude!»

O nosso estranho, sentindo finalmente apoio e comiseração por parte de um desconhecido, enche de ar os pulmões, num movimento de peito como quem vai gritar alto, num pedido de socorro. Mas mais não consegue do que um sopro, demorado, emitindo um som agudo assobiado, de suspiro, no entanto profundo… tanto quanto o tamanho da sua aflição. Depois, recuperando as forças e em silêncio, com o dedo fazendo sinal para que o livreiro o seguisse até um local menos frequentado, desabafa na orelha. Uma orelha aberta, enorme, daquelas que existem unicamente nos seres humanos capazes de ouvir os outros – como os padre na confissão –, seres humanos imbuídos da mais sincera humanidade e ausência total de interesse próprio, ao mesmo tempo capazes de manter segredo - discrição difícil de ver em muitos seres humanos frequentadores de igrejas. Não, meus caros amigos, não se ponham já a protestar, porque isto é apenas o narrador a pensar, não o autor . Em sussurro, tem uma voz tão fraca que o próprio narrador, bem como o leitor, pouco mais terão oportunidade de ouvir do que coiso e tal… e isto e aquilo… e o que se segue: pedindo segredo absoluto, porque todo o cuidado é pouco, tanto mais tratando-se de um funcionário do Estado, ainda que subalterno, conta como se havia envolvido num processo de justiça. Processo esse tão injusto, que, mesmo depois de ter pago o que tinha e o que não tinha em recursos legais, não conseguiu levar por diante o seu intento, isto é, o de lhe fazerem a devida justiça, devolvendo-lhe o que haviam roubado. Os ladrões!… e os outros, os que por lei o juraram defender, como eles iguais.

Ouvindo-o com toda atenção, o livreiro, apercebendo-se rapidamente da complexidade do caso e de que dali não viria nenhuma vantagem ao comércio, antes pelo contrário, lamentou muito o facto, gostava muito de o ajudar, mas que, infelizmente e com todo o pesar, isso não estava ao seu alcance. Não era uma personalidade influente, era tão-somente um humilde livreiro. Depois abanou a cabeça e lá lhe foi dizendo o que o estranho há muito devia saber: que, apesar do contributo inestimável de Montesquieu, conquanto devesse haver separação dos poderes e tal, tudo era pura ficção, como a maior parte dos livros que vendia. Pior ainda quando se tratava de funcionários do Estado. «Ufa!» Porque era assim que as coisas funcionavam. Acabou toda esta ladainha aconselhando-o a dirigir-se «a determinada personalidade influente, porque a essa personalidade influente bastaria escrever e contactar com a pessoa certa para o caso avançar com mais êxito. Nada a fazer. [O nosso amigo] decidiu dirigir-se à personalidade influente. Qual era e em que consistia o cargo da personalidade influente, isso ainda hoje se ignora. É de referir porém que tal personalidade influente se tornara personalidade influente havia pouco e que, antes disso, era uma pessoa sem qualquer influência. Aliás, o cargo dele, mesmo agora, não era considerado assim tão influente, em comparação com outros, claro, mais influentes. No entanto, haverá sempre um círculo de pessoas para as quais quem não tem influência aos olhos dos outros é de facto influente. De resto, a dita pessoa tentava reforçar a sua influência por muitos outros meios, como sejam: estabeleceu que os subalternos o recebessem logo à sua chegada ao serviço, isto é, ainda nas escadas; que ninguém se atrevesse a entrar directamente no seu gabinete, mas que tudo obedecesse a uma ordem rigorosíssima: O registador de colégio devia informar o conselheiro titular, ou outro equiparado, e que só então o caso chegasse até ele. É assim na nossa santa [terrinha]: tudo está contaminado de imitação, cada qual imitando e macaqueando o seu superior. Dizem até que determinado conselheiro titular, mal foi nomeado chefe de uma pequenina repartição, mandou instalar divisórias com a finalidade de isolar uma divisão para si, denominando-a de «sala de reuniões» e pondo à entrada contínuos com golas vermelhas e galões, contínuos esses que pegavam nas maçanetas e abriam a porta a quem entrava, embora na «sala de reuniões» dificilmente coubesse uma mesa de trabalho, Os usos e costumes da personalidade influente eram solenes e majestosos, mas não muito complicados. A base principal do seu sistema era a severidade. Severidade, severidade e, ainda severidade, costumava ele dizer e, dita a última palavra, olhava na cara, muito significativamente, a pessoa com quem falava. De resto, não havia necessidade nenhuma disso, porque a dezena de funcionários que constituíam toda a máquina administrativa da repartição já sem isso levavam a sua existência com o devido temor: mal o viam ao longe, abandonavam os seus afazeres e perfilavam-se em posição de sentido durante o tempo em que o chefe atravessava a sala. A sua conversação normal com os subordinados caracterizava-se pela severidade e quase se resumia a três frases:

«Como se atreve? Não sabe com quem está a falar? Não compreende quem está à sua frente?» De resto, no fundo era um bom homem, simpático com os companheiros, obsequioso, só que o título de general criara nele grande confusão. Obtido o título de general, perdeu a cabeça, desencaminhou-se e não acertava na maneira de se comportar, quando lhe calhava estar na companhia dos seus pares, ainda era uma pessoa como deve ser, uma pessoa, em muitos sentidos, decente, nada estúpida até: mas, bastava-lhe cair numa sociedade de pessoas inferiores a si um grau para que tudo lhe corresse de mal a pior: calava-se, a situação dele provocava a compaixão dos outros, quando, ainda por cima, sentia que podia passar o tempo incomparavelmente melhor. Via-se-lhe às vezes nos olhos o fortíssimo desejo de se meter numa conversa interessante ou de se juntar a um círculo qualquer, mas uma ideia o detinha: não seria ir longe de mais, não significaria entrar em familiaridades, não comprometeria com isso a sua influência? Em consequência de tais raciocínios, ficava sempre no mesmo estado taciturno, apenas pronunciando de vez em quando uns sons monossilábicos, pelo que adquiriu assim o título de homem supinamente enfadonho. Foi a esta personalidade influente que o nosso funcionário recorreu […]»

Como esta história acaba, não vos conto. Porque o meu funcionário do Estado não é o mesmo que o funcionário da personagem do excelente texto – desde que foram abertas as aspas e letras de cor diferente, até que se fecharam – pertencente ao conto «O Capote», de Nikolai Gógol. Se desejarem saber todo o envolvimento, trama e final deste fantástico conto, terão, tal como eu, de o ler até ao fim. E esta foi a maneira singela que encontrei de contribuir para divulgação do livro e da leitura. Para além, é claro, da maravilhosa acção generosa e altruísta que foi tentar vender mais uns livrinhos.

(Colecção Gato Maltês, Assírio & Alvim).

Jaime Bulhosa

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segunda-feira, julho 2

Um livreiro é um homem



Um livreiro é um homem que quando descansa lê; quando trabalha lê; sobretudo catálogos, facturas, sinopses, títulos, autores, fichas técnicas, mas lê; quando passeia, detém-se diante das montras de outras livrarias e inveja os livros que os outros podem ler; quando vai a outra cidade, a outro país, visita outros livreiros, compra mais livros e lê; quando não está a ler fala sobre livros; quando fala sobre livros faz os outros lerem.

Morreu Jorge Figueira de Sousa (1931-2012). Tinha Oitenta anos e era livreiro madeirense (Livraria Esperança, Funchal). Provavelmente a maioria das pessoas nunca dele ouviu falar. No entanto, muitos são leitores por causa dele. Uma vida inteira dedicada à divulgação do livro e da leitura que nem sequer mereceu a distinção no dia 10 de Junho, como foi tentado numa «Carta Aberta de Gentes do Livro», dirigida ao primeiro-ministro, ao Presidente da República e a outras autoridades competentes. Era apenas um velho livreiro, eu sei, mas alguém dizia que quando um velho livreiro morre, com ele uma biblioteca inteira desaparece.

Jaime Bulhosa