quinta-feira, janeiro 5

As coisas hão-de resolver-se


As coisas hão-de resolver-se.
Refrão auto-enganador do senhor Micawber em David Copperfeld


Se dissesse que estou surpreendido com esta notícia, estaria a mentir. Não estou nada surpreendido. O Grupo editorial Leya não está a fazer nada que outros grandes grupos económicos portugueses não estejam já a fazer. É o «capitalismo democrático»: O capitalismo democrático é um sistema concebido para a sobrevivência. Adaptou-se com “sucesso” a todos os choques e sortes, a perturbações tecnológicas e económicas, a revoluções políticas e a guerras mundiais, O capitalismo foi capaz disto porque, ao contrário do comunismo, do socialismo ou do feudalismo possui uma dinâmica interna semelhante à de um organismo vivo. Consegue adaptar-se e aperfeiçoar-se reagindo ao ambiente em mudança. E evolui para uma nova espécie dentro do mesmo género se isso for necessário para sua sobrevivência.
De facto parece um organismo vivo, mas que se assemelha muito mais, a meu ver, a um organismo irracional, uma gigantesca bactéria que pode ser benigna ou maligna, mas que de certeza absoluta, é desprovida de qualquer objectivo ou emoção a não ser a sua própria sobrevivência.
Não me interessa, neste momento, abordar as consequências e o impacto que o despedimento de editores e colaboradores experientes, com provas dadas no mercado, terão nas políticas editoriais e nos catálogos das editoras – agora chancelas do grupo Leya –, com um historial importante na edição de livros de qualidade, elas parecem-me óbvias. Não tenho respostas para dar, apenas tenho perguntas para fazer. Interessa-me perceber o porquê disto. O que vai acontecer a estas pessoas? Qual vai ser o seu futuro? Porque é que estas pessoas de repente deixaram de ser competentes e não podem ser recolocadas noutros sectores? Porque é que uma empresa que factura, segundo o jornal Público, 90 milhões de euros, necessita tanto de reduzir despesas? Porque é que se desiste e se abandona este país?
Algumas das 30 pessoas que foram despedidas, e acredito que muitas mais se seguirão, conheço e trabalhei com elas directamente e não posso deixar de me preocupar com o seu futuro.
Tudo isto me faz lembrar um pequeno conto de Dostoiévski que li, não me recordo do título, que era mais ou menos assim: Um sujeito que tinha acabado de assistir a um funeral, de alguém que não conhecia, deixou-se ficar pelo cemitério, depois de toda a gente o ter abandonado, para poder reflectir um pouco sobre a vida e a morte. Foi então que de repente começou a ouvir vozes. As vozes vinham dos habitantes do cemitério, ou seja, dos próprios mortos. Os mortos, sem darem conta da presença do sujeito, começam a conversar entre si. Para espanto do observador vivo, os mortos revelam, nas suas conversas, todos os vícios, defeitos, invejas, ambições, sentimentos e emoções dos vivos, só que de uma forma muito mais exacerbada. Conclusão, os mortos revelam-se muito piores que os vivos.
Será que este país está morto e ainda não demos por isso?    

Jaime Bulhosa

3 comentários:

Anônimo disse...

"De facto parece um organismo vivo, mas que se assemelha muito mais, a meu ver, a um organismo irracional" talvez se assemelhe a um... cancro?

asminhasquixotadas disse...

É assustador o futuro dos livros neste país e o quanto estes se tornam somente um negócio, parecendo que o muito que são se limita a isso. Mas não é menos triste o modo como se vira costas a este país e se deixam desamparadas pessoas que já provaram bem a qualidade do seu trabalho. Creio sobretudo que faltam valores: há muitos gestores que deviam ler os clássicos para ver se apreendiam alguns valores que já vão faltando.

Anônimo disse...

Sou uma dessas pessoas... De repente, tornamo-nos animais extintos, não pela qualidade do que fazemos, não pelo que demos a ganhar à empresa, mas porque somos um número a retirar de 90 milhões. Aliás, até houve crescimento da leya em termos de quota de mercado, à custa dos que lá trabalham! Mais do que a raiva por este «xuto» imerecido, fico a pensar que mundo, que país, andamos todos nós a construir para os nossos filhos?