terça-feira, janeiro 24

é só mais uma?...

Setembro de 2007, abrimos as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Nós bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo, ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de outras paragens. Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez, acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopin – tan, tan, taran, tan, tanran, tan tan – «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias de defunto vindas de outras paragens.




Nota: sobre a mesma notícia aqui e aqui.

4 comentários:

asminhasquixotadas disse...

E pronto, lá virá uma Zara, uma H&M ou, quem sabe, uma Fnac ocupar um espaço do qual muita gente não sentirá a menor falta. Aos poucos toda a paisagem do Chiado perde as pequenas pérolas que ainda tinha e cede-se às marcas estrangeiras daquilo que realmente se vende. Quem gosta de livros e de livrarias fica mais pobre, como sempre, e com a sensação de que tudo o que é realmente importante acaba por se perder. Andamos com as prioridades tão trocadas...

Carlos Barbosa disse...

Este texto faz-me lembrar um conto de Kafka que se chama exatamente "O Abutre".

Pó dos Livros disse...

Carlos,

nem mais, também li. ;)

SEVE disse...

Chinesa é, de certeza, venha ela de Cantão ou não...