Setembro de 2007, abrimos
as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá
da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos
nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num
som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da
liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Nós
bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao
mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo,
ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de
outras paragens. Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez,
acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos
a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopin –
tan, tan, taran, tan, tanran, tan tan – «Quando é que chega o dia da
liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar».
Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias
de defunto vindas de outras paragens.

4 comentários:
E pronto, lá virá uma Zara, uma H&M ou, quem sabe, uma Fnac ocupar um espaço do qual muita gente não sentirá a menor falta. Aos poucos toda a paisagem do Chiado perde as pequenas pérolas que ainda tinha e cede-se às marcas estrangeiras daquilo que realmente se vende. Quem gosta de livros e de livrarias fica mais pobre, como sempre, e com a sensação de que tudo o que é realmente importante acaba por se perder. Andamos com as prioridades tão trocadas...
Este texto faz-me lembrar um conto de Kafka que se chama exatamente "O Abutre".
Carlos,
nem mais, também li. ;)
Chinesa é, de certeza, venha ela de Cantão ou não...
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