quarta-feira, janeiro 18

escolha!






Gosto quando os livros pensam como os sábios, mas falam como falam as pessoas simples
livreiro anónimo a partir de uma frase de Aristóteles.

Sou por vezes confrontado por amigo que me critica pela forma como vejo os livros e me diz que sistematicamente faço uma apologia hipócrita da diferença que existe entre os bons livros e os maus livros. Diz ele que isto tem que ver não com a minha prática, mas sim com elitismo infundado. Considera que as vantagens que eu defendo não fazem qualquer sentido, porque o que é bom para mim não tem necessariamente de ser bom para ele, isto é, a diferença entre um bom livro e um mau livro está sobretudo no leitor e não no livro em si, já que é o nível de conhecimentos das pessoas que desencadeia a diferenciação. Uma pessoa pode ter prazer com a leitura de um livro que é considerado mau por muita gente, e nenhum prazer com um livro por outros considerado excelente. Tudo depende do seu nível cultural.

Eu seria forçado a concordar com este meu amigo, não fosse aquilo que nos separa em termos de conceito, isto é, em termos das características que temos em conta para classificar certos livros como bons e outros como maus. Para mim, a diferença não está no grau de dificuldade da leitura nem no prazer que sentimos, pois isso sim depende mais, quase sempre, do leitor do que do próprio livro; a diferença está na honestidade do seu conteúdo. O que eu quero dizer é que um livro, como qualquer outro produto cultural que se adquire, deve reger-se por padrões mínimos de qualidade e credibilidade, independentemente do público a que se dirige. Deve ser original (a menos que esteja expresso o contrário) e não deve conter erros (sejam de que tipo forem), nem pode ser escrito de forma displicente, devendo acrescentar algo ao que já sabemos e evitar transmitir ideias racistas, chauvinistas, homofóbicas, misóginas, etc. 

Sou, no entanto, forçado a concordar com o meu amigo quanto à ideia de que há pelo menos quatro idênticas sensações experimentadas, quer quando lemos um bom livro de que gostamos muito, quer quando lemos um mau livro de que não gostamos nada. Quando lemos um bom livro de que gostamos muito, sentimos: ansiedade para chegarmos ao próximo capítulo; angústia perante a aproximação do fim; tristeza por termos acabado a leitura e vazio por sermos obrigados a deixá-lo. Quando lemos um mau livro sentimos: ansiedade perante a perspectiva do próximo capítulo; angústia por não querermos ver-lhe o fim; tristeza pelo facto de o termos adquirido e, finalmente, a sensação de vazio que ele nos causou.



Jaime Bulhosa

Um comentário:

CCoelho disse...

Obrigada pelo seu artigo!De facto, são essas as sensações quando lemos livros. Bons e maus livros. Parece-me que é algo semelhante ao apreciar de uma pintura, uma escultura, etc. Podemos ter ou não formação e cultura para as apreciar adequadamente, no entanto, conseguimos emitir uma avaliação: “É espectacular”, “Não percebo nada do que lá está, mas é bonito” ou um “Não me atrai”. E no fim, não é essa a essência da arte?