Gosto quando os
livros pensam como os sábios, mas falam como falam as pessoas simples
livreiro anónimo a partir de uma frase de Aristóteles.
Sou por
vezes confrontado por amigo que me critica pela forma como vejo os livros e
me diz que sistematicamente faço uma apologia hipócrita da diferença que existe
entre os bons livros e os maus livros. Diz ele que isto tem que ver não com a
minha prática, mas sim com elitismo infundado. Considera que as
vantagens que eu defendo não fazem qualquer sentido, porque o que é bom para
mim não tem necessariamente de ser bom para ele, isto é, a diferença entre um
bom livro e um mau livro está sobretudo no leitor e não no livro em si, já que
é o nível de conhecimentos das pessoas que desencadeia a diferenciação. Uma
pessoa pode ter prazer com a leitura de um livro que é considerado mau por muita gente, e
nenhum prazer com um livro por outros considerado excelente. Tudo depende do
seu nível cultural.
Eu seria forçado a
concordar com este meu amigo, não fosse aquilo que nos separa em termos de
conceito, isto é, em termos das características que temos em conta para
classificar certos livros como bons e outros como maus. Para mim, a diferença não
está no grau de dificuldade da leitura nem no prazer que sentimos, pois isso sim depende mais, quase
sempre, do leitor do que do próprio livro; a diferença está na honestidade do
seu conteúdo. O que eu quero dizer é que um livro, como qualquer outro produto
cultural que se adquire, deve reger-se por padrões mínimos de qualidade e
credibilidade, independentemente do público a que se dirige. Deve ser original
(a menos que esteja expresso o contrário) e não deve conter erros (sejam de que
tipo forem), nem pode ser escrito de forma displicente, devendo acrescentar algo ao que já sabemos e evitar
transmitir ideias racistas, chauvinistas, homofóbicas, misóginas, etc.
Sou, no
entanto, forçado a concordar com o meu amigo quanto à ideia de que há pelo
menos quatro idênticas sensações experimentadas, quer quando lemos um bom livro
de que gostamos muito, quer quando lemos um mau livro de que não gostamos nada.
Quando lemos um bom livro de que gostamos muito, sentimos: ansiedade para chegarmos ao próximo
capítulo; angústia perante
a aproximação do fim; tristeza por
termos acabado a leitura e vazio por
sermos obrigados a deixá-lo. Quando lemos um mau livro sentimos: ansiedade perante
a perspectiva do próximo capítulo; angústia por
não querermos ver-lhe o fim; tristeza pelo
facto de o termos adquirido e, finalmente, a sensação de vazio que
ele nos causou.
Jaime Bulhosa

1 comentários:
Obrigada pelo seu artigo!De facto, são essas as sensações quando lemos livros. Bons e maus livros. Parece-me que é algo semelhante ao apreciar de uma pintura, uma escultura, etc. Podemos ter ou não formação e cultura para as apreciar adequadamente, no entanto, conseguimos emitir uma avaliação: “É espectacular”, “Não percebo nada do que lá está, mas é bonito” ou um “Não me atrai”. E no fim, não é essa a essência da arte?
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