quinta-feira, fevereiro 16

No miolo dos livros



Qual a diferença entre um livro novo e um usado? A resposta a esta pergunta é óbvia. Um livro novo é um puro artefacto que pode ser comprado numa livraria comum, enquanto um livro usado é um objecto de estimação que por um qualquer milagre de preservação sobreviveu à destruição inexorável do tempo. Desprezado, abandonado por quem não lhe deu valor, aguarda num local especial, alguém que lhe dê uma nova morada. A idade de um livro novo é sempre a mesma, todo ele brilha exibindo-se nas montras das livrarias, mas, pelo contrário, um livro usado está escondido e pode ter entre apenas uns dias a uns séculos de idade. As suas páginas empalideceram, as capas deixaram de cintilar. Contudo, tornaram-se vintage  e ganharam glamour. Mas a real diferença é mais substancial. Não existe nenhuma aura de mistério sobre um livro novo, ele ainda não tem nenhuma história, a não ser a contida no próprio livro. O preço varia pouco e resulta principalmente do número de exemplares editados. O livro usado está cheio de mistérios: Quantos anos tem? Quantos leitores teve? Quem eram? Para onde o levaram? A quem o dedicaram? Com que sentimentos o fizeram? Mistérios quase deslindados pelos objectos encontrados dentro do miolo dos livros. Uma carta de amor aceso, uma dedicatória fraterna, um lamento de saudade e uma fotografia para recordar. Uma madeixa de cabelo, um bilhete de autocarro sem destino, uma flor seca e uma folha de arbusto a servir de marcador.
O seu valor comercial é outro mistério, depende do facto de o livro se encontrar em bom estado de conservação, ser ou não uma edição esgotada, uma primeira edição, uma edição limitada ou fac-similada, mas o que determina verdadeiramente o seu valor é aquilo que alguns acreditam que vão conseguir por ele e quanto vale o desejo de outros o possuir.
O livro antigo frequentemente desaparece sem deixar rasto e quando mais precisamos dele. Podemos até entrar em dezenas de livrarias, passar os olhos por centenas de estantes, apontar o dedo a milhares de títulos e no entanto, não encontrar o livro que pretendemos. O livro em segunda mão é intrinsecamente superior ao livro novo, porque quem o compra ama realmente o livro.
No livro usado há sobretudo esse tempo que é transportado fisicamente pelos livros. Esse pó que fica nos livros. O pó do tempo. Nos novos instrumentos não haverá pó. É só o que lhes falta. Esse pó quer dizer o tempo, a própria essência da nossa vida.*

Jaime Bulhosa

* Eduardo Lourenço

7 comentários:

Ivone Costa disse...

Belo post, Jaime. É preciso amar os livros,e amá-los bem, para entender isto.

Malu disse...

Eu adoro garimpar livros antigos em sebos.
Não saberia lhe descrever a alegria que senti ao encontrar “ A musa de Quatro Idiomas.”(já lhe falei deste livro). Embora as folhas, já amarelecidas, estejam querendo despetalar, sempre me encanto com os poemas que leio e releio. O que é belo o será eternamente.
Para ilustrar :

" Folhas de Amor "
Narciso Araújo.

Folhas de amor... Abro essas folhas. . . Leio.
Versos de tempos idos, versos suaves,
como, nos ninhos, tartareios de aves,
dentro de um bosque, de perfume cheio.

Doce música azul do devaneio,
regida pelo amor - clave das claves,
prece do coração, no átrio das naves,
em vôos para o céu, na asa do anscio.

É luz, aqui, saudosa e melancólica.
Ali é sol glorioso e entusiasta . . .
Ardor de luta e logo paz bucólica.

E vão meus olhos lendo, lendo imersos
numa saudade que soletra, casta,
o lindo nome que inspirou tais versos.

Jasmim disse...

É exactamente assim. Amar os livros é isso. Que sentiram os que leram este livro antes de mim? ... A alegria maior é encontrar um livro que lemos há muito (a mesma edição, a mesma capa, a mesma "textura", quiçá o mesmo cheiro) e perdemos no carrossel da vida.

fêrlyvictoria disse...

Livros antigos tem uma historia envolvente.
Passando&seeguindo. Beijiinhos :*
@per_feitosparaoamor
@ferly_victoria
http://reverseobrlife.blogspot.com/

Patty disse...

E encontar o livro que procuramos há anos, num qualquer recanto perdido, é como encontrar um amigo que julgávamos perdido...
Adoro livros, e adoro consegui-los em segunda mão!

Anônimo disse...

Se gostam tanto de ler e escrever participem http://concurso-escrita-online.blogspot.com/ eu vou participar ;D

asminhasquixotadas disse...

Como concordo consigo! Adoro livros novos e velhos. Os novos porque nascem sob o meu olhar e hão-de envelhecer comigo, os velhos porque já viram muito e porque me deixam curiosa quanto ao seu passado. Mais: se sobreviveram e chegaram às minhas mãos, por alguma razão foi e esta é, muitas vezes, a da qualidade. Faço colecção de edições do Quixote e tenho muitas antigas. Recordei-me de uma enquanto lia o seu texto. É uma edição inglesa, traduzida por Charles Jarvis, na qual alguem escreveu no canto superior direito da folha de rosto um lugar e uma data. O lugar é Oxford, a data é algures no século XVIII (não me recordo). Quando recebi a edição admirei-a por ser mais uma do meu livro favorito, mas também pelo muito que já tinha vivido. Quem a leu? Quem, em Oxford, passeou com o livro debaixo do braço? Quem fez a anotação? E agora, que livro novo levantaria tantas perguntas e tanta imaginação?... Compreendo, por isso, o que diz e assino por baixo.