segunda-feira, março 26

Erro


(erro corrigido à mão)


Gosto de ler livros usados, com pequenas notas coloridas nas margens, dedicatórias, sublinhados nas frases que alguém considerou importantes, folhas dobradas nos cantos, objectos escondidos dentro do miolo. Tudo que possa indicar a presença de outro leitor, para além de mim, fascina-me. É como se aquele livro tivesse várias vidas, vários conteúdos e muitas histórias para contar.
Outro dia folheava um livro do início do século vinte que continha, como marcador, uma carta dirigida a um fulano brasileiro. A carta para além dos cumprimentos habituais continha um pedido simples. Pedia ao tal fulano que tentasse comprar, através dos seus conhecimentos, nos sebos (alfarrabistas) do Rio de Janeiro, uma segunda edição das Poesias Completas de Machado de Assis, da livraria Garnier, 1902. Até aqui nada de extraordinário. No entanto, o pedido tinha algumas nuances. Não podia ser uma tiragem qualquer, teria que ser a primeira tiragem impressa em França. Parece que nessa primeira tiragem teria escapado, à revisão, um pequeno erro. No prefácio, Machado de Assis terá escrito «…cegara o juízo…». Contudo, o tipógrafo francês trocou o e por um a. Como devem calcular o autor não deve ter gostado nada da brincadeira. O pior é que só percebeu o engano quando já estavam vendidos alguns exemplares. O erro foi alterado nas tiragens seguintes. Contudo, foi esse pequeno pormenor que transformou os livros, com o erro, num dos objectos mais valiosos e apetecíveis para um bibliófilo. Ora, era exactamente um exemplar dessa tiragem que o autor da nossa carta tanto desejava.  
E foi assim que tomei conhecimento desta verídica história.

Jaime Bulhosa

Um comentário:

Bruno Vieira Amaral disse...

Esta história também é mencionada no livro O Bibliófilo Aprendiz.