quinta-feira, março 22

Ler com olhos de ver

Ainda na senda das cerejas, hoje temos um cesto cheio delas. A convidada especial é Sara Amado que arruma e desarruma a Prateleira-de-baixo e que aqui na Pó dos livros tanto gostamos de visitar. 
Decidimos por isso trocar de prateleiras e transportá-la virtualmente até aqui para nos deixar as suas sugestões.
Escolhemos um dia especial porque as prateleiras também crescem e hoje é dia de aniversário por lá. Sejam bem-vindos!

"Ler com olhos de ver"

Nunca pensei ser tão difícil fazer uma montra, não a atulhar com cem mil livros. Escolher antes um tema, uma lógica qualquer que diga a quem passa "entre, garantidamente, estes livros não ganharão ". Mas escolher é tão difícil, implica deixar de fora tantos livros belíssimos. Terão sempre a prateleira-de-baixo (cheia de hífens à moda antiga) de onde saem de vez em quando, à medida que a vida acontece. Faço então hoje uma montra poética, espartana, sintética, pouco nacionalista- e por isso bastante provocatória - a pensar nos leitores que ainda não leem (ou que ainda não leem palavras). E estico a lista até aos 7 porque é há 7 anos que escolho livros para os habitantes cá de casa, razão primeira da prateleira-de-baixo.


"0 - Jeu de formes (de Hervé Tullet), para ler com os olhos, com as mãos e, claro, com os dentes, de pernas para o ar ou de lado, de trás para a frente ou de frente para trás.



1 - Imagier des saisons (de Francesco Pittau+Bernadette Gervais), para virar as páginas e ver ao mesmo tempo, por dentro e por fora, o mundo inteiro em zoom, cheio de nomes, cheiros, cores e minúsculos importantíssimos pormenores.

2 - Creature (de Andrew Zuckerman), para pôr a mão na boca do leão, passar o dedo nos dentes do crocodilo, comparar os dedos às penas da águia imitando, claro, o som de cada animal à medida que se passa a página.

3 - Almost everything (de Joelle Jolivet), para conhecer todas as palavras do mundo e ver que os livros (e o mundo) são mesmo uma coisa GRANDIOSA.


4 - I numeri (de Luigi Vernonese), para contar pelos dedos os dentes, os limões, os degraus, as lâmpadas, os sinais, os carros, as janelas e o tempo que falta para chegar a casa dos Avós.



5 - Immaginario (de Blex Bolex), para começar a ler em maiúsculas, adivinhando o que são aquelas magníficas imagens que, quase sem nada, mostram tudo. E deitar-se a pensar porque é que o nudista está ao lado do homem invisível, ou porque é que a contorcionista faz parelha com o canalizador.



6 - Il ne faut pas confondre... (de Bruno Gibert), para depois de conhecer as palavras poder baralhá-las, brincar com elas e descobrir os seu sons e sentidos escondidos, traiçoeiros.



7 - Robinson Crusoe (de Alberto Morales Ajubel), para depois de saber ler não esquecer que as imagens também falam e que as aventuras ainda agora começaram. "


*texto de Sara Amado.

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