terça-feira, março 27

Um livro para uma vida



Entra na livraria um cliente, não tinha nada de peculiar, era um senhor de classe média, como muitos outros. Porquê de classe média? Bem, é o que se costuma dizer quando as pessoas não se distinguem dos outros pela roupa que vestem. Todavia, este pormenor não tem a menor importância para a nossa pequena história. 
Ora, estava eu a dizer, entra um cliente, que, apesar de não ter nada de característico, me chamou a atenção por ser a terceira ou quarta vez, no espaço de quatro anos de existência desta (modéstia à parte) belíssima livraria, vem comprar o mesmo livro. Por curiosidade, perguntei-lhe:
- Peço desculpa pela intromissão, mas porque é que compra sempre o mesmo livro?
Sem ficar melindrado o senhor responde-me:
- Porque o exemplar que eu releio, sistematicamente, fica desfeito de tanto uso.
Quando lhe perguntei porque continuava a reler sempre o mesmo livro, respondeu-me:
- Gosto muito dele, porque haveria de ler outros.


Jaime Bulhosa

9 comentários:

Dada disse...

E pode saber-se qual é o livro? Deixou-me curiosa...

Pó dos Livros disse...

A "Odisseia", de Homero. Dá para uma vida inteira. ;)

jaime

Cristina Torrão disse...

Pois, um livro que se lê, acusa o seu uso. Bem me parecia!

Vem isto a propósito do post de hoje do Horas Extraordinárias, em que a sua autora admira um qualquer senhor que bateu no filho por este querer abrir o celofane que envolvia o livro que servia de bibelot numa estante. Diz que isso é respeito pelo livro!

Pó dos Livros disse...

Cristina Torrão,
Na cultura ocidental, ou melhor, nas três grandes religiões monoteístas existe uma espécie de religião do livro: o livro sagrado colocado em evidência no altar e de que o padre voltava as folhas com respeito, virando as costas aos fiéis. Foi isso que sacralizou o livro. Os tempos, felizmente, mudaram. Viva o livro manuseado, anotado sublinhado! É sinal de que foi lido.

Jaime

redonda disse...

Também fiquei curiosa sobre qual seria o livro :)

marta morais disse...

Uma vez li um artigo sobre psicologia infantil porque é que os miúdos não só não se importam de ler/ver/fazer as mesmas coisas repetidamente, como têm muito gosto nisso. A razão era mais ou menos essa 'resposta' que o cliente deu. Eles são felizes a ler aquele livro, por isso tendem a repetir. Enquanto que os adultos andam de livro em livro em busca dessa felicidade.

SEVE disse...

Quem lê A ODISSEIA tantas vezes já deve ter lido tudo!

asminhasquixotadas disse...

O mesmo vai sucedendo aos meus «quixotes». Felizmente faço colecção e já tenho muitos, posso dividir-me pelos vários exemplares sem dar cabo de nenhum em concreto. =) A ideia de um livro que fica velho pela muita releitura é bonita. Pena que seja tão raro que tal suceda, numa época em que os livros parecem ser, cada vez mais, objectos descartáveis.

A. F. disse...

Ah, como eu gostaria de ter uma foto desse senhor no meu Acordo Fotográfico!
Sandra