segunda-feira, abril 30

Perdi o meu apelido



Não fiquei surpreendido com esta notícia: “protesto por ordenados em atraso leva à suspensão de funcionário da Bulhosa Livreiros”, até porque, aqui há uns meses, já tinham vindo a público notícias semelhantes. No entanto, não posso deixar de fazer alguns comentários. Mas primeiro tenho que fazer uma pequena introdução.

A Bulhosa Livreiros foi fundada em 1987, por três irmãos: Paulo, Jaime e Gonçalo Bulhosa, na livraria das Amoreiras que ainda hoje existe. Juntamente connosco, ao balcão, trabalhavam mais quatro ou cinco “colegas” (assim eram tratados os funcionários da empresa). Com trabalho, colaboração e sorte, o negócio correu bem. Em cerca de dezoito anos a empresa cresceu de uma para sete livrarias e de oito funcionários para mais de sessenta. Por lá passaram mais de uma centena de pessoas, frequentemente, jovens estudantes. Alguns deles são hoje editores, tradutores, empresários, gestores, psicólogos, publicitários, artistas, etc., outros continuam livreiros, na Bulhosa ou noutras livrarias. Apesar do crescimento o espírito da empresa manteve-se o mesmo, ou seja, o de uma empresa familiar (não era tanto books & living era mais books & family, mas em português). Os funcionários que nela trabalhavam eram respeitados, tinham nome e face. Esforçávamo-nos por os manter e eram tidos como o maior valor da empresa (afinal de contas um livreiro leva anos a formar-se). Eram remunerados acima da tabela e tinham em média 16 ordenados por ano (aqueles antigos colegas, que ainda por lá trabalham, podem confirmar que isto é verdade). Como era uma empresa de sucesso, saudável financeiramente, (mesmo pagando bem) tornou-se cobiçada por investidores da área. Então, há aproximadamente oito anos, o meu irmão mais velho (sócio maioritário) decidiu vender a sua quota. Nessa altura já só me tinha a mim como sócio, o Gonçalo tinha saído há uns anos para fundar a editora Oficina do Livro. Não concordei com a decisão do meu irmão, e tentei impedir que isso acontecesse. Todavia, não tinha muitas alternativas, ou eu próprio comprava a quota do meu irmão (hipótese que não consegui concretizar por falta de recursos financeiros) ou ficava nas mãos dos novos e desconhecidos investidores e arriscava um aumento de capital que não conseguiria acompanhar. Como esta era a última coisa que queria (o tempo veio dar-me razão) optei pela terceira alternativa que era também vender. Foi a assim que o meu nome e a rede de livrarias Bulhosa foram parar às mãos do grupo Civilização.

É verdade que os tempos que correm são outros. Vivemos uma crise económica grave e cabe a cada um de nós lutar, responsavelmente, pelo posto de trabalho. É evidente que as empresas, enquanto esta crise se mantiver, não se podem dar ao luxo de pagar como nós pagávamos. Mas também é verdade que uma empresa que se esquece que o seu maior capital são as pessoas, arrisca-se a que as coisas não corram bem. Tenho dificuldade em entender como é que uma empresa que sempre declarou lucro, com pessoal formado e nome consolidado no mercado chegue, em apenas oito anos, a uma situação destas. Provavelmente haverá razões que desconheço. Quem tem o mínimo de princípios deve pagar as suas dívidas, de uma maneira ou de outra, isto é, com dinheiro ou sem dinheiro. De qualquer das formas estou solidário com os funcionários da Bulhosa e esperançado em que os actuais proprietários consigam resolver a situação.

Estou também preocupado com as notícias que vão saindo na comunicação social e redes sociais. É que em todos os artigos que li, e onde vinham as escassas declarações dos administradores da Bulhosa Livreiros, nunca mencionavam os seus nomes. Será que estes preferem fingir que não é nada com eles e deixar que a responsabilidade recaia nas costas de outros? Não é por nada, mas a maior parte das pessoas julga que os donos da Bulhosa são os Bulhosa. Como devem calcular é bastante desagradável, para mim, receber ameaças e insultos sem ter propriamente culpa e ter que ouvir os meus filhos dizer, apesar de eles terem a perfeita noção da realidade: «Pai, disseram-me hoje na escola que o que estás a fazer não se faz!». Apeteceu-me responder-lhes com uma citação de Hanoré de Balzac: «… o que está no bolso dos outros estaria muito melhor no meu!... Afastem-se para eu poder sentar-me no vosso lugar!...» Em poucas palavras, este é o princípio básico de toda a moral.

Jaime (…)

9 comentários:

Anônimo disse...

Agora já percebi porque é que a coisa mudou há anos atrás! Fez-se luz! Interessante pensar como as coisas saiem de mãos familiars e tornam-se "nisto". Tenho pena... adoro livrarias, livros e livreiros com quem conversar!

Quanto ao apelido... Espero que o encontre e rapidamente! Não há paciência para usurpadores de identidade e, acima de tudo, delegadores de responsabilidades.

Carolina Lourenço

fallorca disse...

Não, Jaime, com este post reforçaste o teu honrado apelido.
Abraço, pá

stiletto disse...

O problema de Portugal, e de alguns empresários, é não perceberem que o capital mais importante de uma empresa são as pessoas. Se os colaboradores forem acarinhados, apoiados e pagos de acordo com o seu esforço e dedicação, a empresa tem mais hipóteses de prosperar. Agora tentar gerir uma empresa de costas voltadas para quem lá trabalha...

VirgulinoFinal disse...

Eu trabalho na Bulhosa e sempre que tenho essa possibilidade refiro que o nome Bulhosa é agora uma marca, nada tem a ver com a família Bulhosa. De facto é lamentável que perante esta situação as pessoas não possam recuperar o su bom nome. Mas chegará o dia em que se chamará os bois pelos seus verdadeiros nomes.

Rui Roque disse...

Jaime, como compreenderás, não vou poder dizer aqui tudo o que penso sobre quem (não) me paga o ordenado, já basta o que basta. Quero no entanto e uma vez mais, agradecer a tua solidariedade para com os trabalhadores da empresa com o teu apelido perdido e tranquilizar o teu filho, pois são outros os apelidos que devem dinheiro aos trabalhadores... e isso de facto não se faz!

Pó dos Livros disse...

Rui, lutar pelos nossos direitos pode ser um "trabalho" muito ingrato, principalmente para quem dá a cara e nem sempre depois é reconhecido. Muitas vezes até é mal interpretado e já te deves ter sentido isso na pele. Eu senti isso quando há oito anos defendi os meus e os vossos direitos e fui atacado por quem menos esperava e estava a defender. No entanto, devem ter consciência que a Bulhosa é o sustento de muitas pessoas e também é a vossa casa e deve ser protegida independentemente de quem seja o dono. Eu sei que nem sempre é fácil fazer essa separação. A vossa luta passa sobretudo pela a exigência de uma boa gestão, da verdade e da transparência. Não podemos nunca por em causa a boa fé das pessoas sem antes estarmos na posse desses dados. Boa sorte para todos.

argumentonio disse...

pois que se impõe uma rectificação: o apelido não foi perdido, apenas foi cedida a sua utilização para fins comerciais, enquanto marca de uma empresa que mudou de titulares

naturalmente, o apelido não se perde, nunca

no caso em apreço, resulta um incómodo evidente pelas consequências nocivas da situação e atitude da nova gestão da empresa

mas isso, lamentavelmente, ocorreria sempre qualquer que fosse a marca, pois a ligação ao acervo, património e história da empresa não decorre exclusivamente da coincidência do apelido com a marca, nem sequer da marca em si, por mais abstracta que fosse - fica sempre um elo, na memória, nos afectos, porventura nos sonhos

aliás, a atitude solidária para com os trabalhadores, para com o respeito pelo mundo dos livros, para com a memória da livraria, é a motivação principal e genuína causa da invocação do apelido "perdido", evidenciando que perdido nunca será

;_)))

Teresa Coutinho disse...

Há já alguns anos que não visito a Livraria Bulhosa e quando a frequêntava, sentia também esse carácter familiar. Pena que o prestígio se perca por má gerência!

Fernando Frazão disse...

O seu post reforça a minha vontade de sustentar o seu atual projeto e só há uma maneira de o fazer.
Comprar livros.
Bem haja e muito sucesso na sua Pó dos Livros.