quarta-feira, maio 16

A Bíblia ou o Alcorão, qual dos dois livros é o melhor?



Um cliente poisa sobre o balcão a Bíblia e o Alcorão e pergunta ao livreiro:
- Qual dos dois livros é o melhor? Isto é, qual da três leis, a judaica, a sarracena ou a cristã, considera a verdadeira?
A pergunta procurava apanhar-me na rede das próprias palavras e pensei que não podia louvar nenhuma das três leis mais do que as outras sem com isso permitir ao cliente atingir os seus fins. Por isso, a necessidade aguça o engenho e respondi-lhe assim:
- Meu senhor, é uma pergunta importante essa que me fazeis e, para vos dizer o que penso a tal respeito, preciso de vos contar uma historieta.

Se a memória não me atraiçoa, recordo-me de muitas vezes ter ouvido falar de um homem rico e poderoso que possuía um tesouro no qual, entre outras jóias de grande preço, havia um belíssimo e valioso anel. Querendo prestar homenagem ao seu valor e à sua beleza e deixá-lo para todo o sempre aos seus descendentes, determinou que aquele dos seus filhos nas mãos do qual o anel fosse encontrado seria o seu herdeiro e deveria ser honrado e respeitado pelos outros como primogénito. O filho a quem foi deixado o anel, fez com os seus descendentes o que fizera o seu predecessor. Em suma, o anel andou de mão em mão ao longo de uma série de herdeiros. Acabou por cair nas mãos de um homem que possuía três filhos belos e virtuosos e muito obedientes a seu pai, razão por que este a todos amava igualmente. Mas os jovens, que conheciam a lei do anel, levados pela ambição de ocuparem o primeiro lugar na família, pediam todos eles ao pai, já velho, que lhes deixasse o anel à hora da morte. O bom homem, porém tinha por todos eles o mesmo afecto e por isso não sabia designar um herdeiro. Pensou então satisfazer a todos, prometendo-lhes igualmente o anel. Secretamente, encarregou um hábil artista de fazer outros dois, que ficaram tão parecidos com o primeiro que o próprio autor mal distinguia o autêntico. E, quando a morte se aproximou, deu-os, às escondidas, a cada um dos filhos.
Estes, após a morte do pai reclamaram a herança e a honra da progenitura. Como negassem uns aos outros todas as qualidades, resolveram provar o fundamento dos seus direitos mostrando o anel. E viram os anéis tão iguais uns aos outros que não se podia descobrir qual era o verdadeiro e ficou pendente (e ainda está) a questão de saber quem era o autêntico herdeiro do pai.
O mesmo vos direi, meu senhor, das três leis dadas aos três povos por Deus Pai. Cada um deles, certo da sua herança, pensa deter a verdadeira lei e os seus mandamentos. Mas, tal como com os anéis, a questão continua pendente.*

* Saladino e a Lenda dos Três Anéis, in Decameron, Boccaccio.

Jaime Bulhosa

3 comentários:

Mário Ferreira disse...

Gostei da história e da lição...

Beatriz disse...

Gostei imenso!

Anônimo disse...

Ótima ilustração que serve muito bem para mostrar que apenas UM dos anéis é o VERDADEIRO, apesar dos outros dois "parecerem" idênticos, apenas um é o verdadeiro os demais são apenas imitação! O mesmo se aplica aos livros!!!