terça-feira, maio 22

Ler não tem que ser um acto solitário




A senhora X, octogenária, vem desde há quatro anos, todas as tardes, à livraria Pó dos Livros. Entra silenciosamente e, como é costume, cumprimenta-nos com um suave:
 - Boa tarde.
Depois, dirige-se devagarinho para as estantes junto ao café e retira como é habitual dois ou três títulos e tão silenciosamente como entra, senta-se no café, sempre no mesmo lugar, a ler. Quando chega a hora de fechar, deixa os livros em cima da mesa e retira-se com outro ameno:
 - Boa noite.
Em quatro anos, boa tarde e boa noite, foram as únicas palavras que lhe ouvi proferir. Não foi pelo facto da senhora utilizar a livraria como biblioteca que decidi perguntar-lhe a razão porque o fazia há tanto tempo, apenas por curiosidade. Respondeu-me:
- Venho para cá porque vocês me fazem companhia. Em casa estaria, mais uma vez, sozinha.

Dia 10 de Novembro de 2011

Nota: Já há uns dias que tinha dado pela ausência. A partir de agora e todos os dias, no fim da tarde, no café, há uma cadeira que antes ocupada estará vazia. Tive a triste notícia de que a senhora faleceu. Vai fazer-me falta a silenciosa companhia.


Jaime Bulhosa

4 comentários:

Pedro Lérias disse...

Uma história muito humana a que conta aqui.

Este tipo de serviços prestados à comunidade nada valem quando comparados com 50% na Feira do Livro.

É tão triste que a CML incentive a desertificação de Lisboa. As lojas abertas ao público prestam serviço público difícil de avaliar.

Mas prestam.

Na Loja de História Natural, aberta muito menos tempo que vocês, tive algumas situações dessas, em que prestamos um serviço gratuito ao público. Por isso quando me aparecia alguém com um iPad aberto na Amazon a dizer-me que o meu livro estava muito caro...

Coisas, coisas.

sonia disse...

Que bela forma de sentir-se em boa companhia. Sábia senhora. Melhor a companhia dos livros do que a de tantos chatos por aí afora....

Anônimo disse...

Num café de um bairro, onde eu morei durante alguns anos, entrava, todos os dias, um senhor engelhado e muito,muito velhinho, pedia, inavariavelmente, um copo de água quente onde mergulhava uma saqueta de chá, um dia, o dono do café disse-lhe:
- Para que traz o senhor a saqueta do chá, de casa? Não é preciso. Eu ofereco-lhe um chá todos os dias, com muito gosto.
O senhor engelhado e muito velho respondeu-lhe:
_ Mas assim, para além, de eu ficar em dívida consigo estaria a impor-lhe a minha solidão. Quando o senhor me dá um copo de água quente está a partilhar comigo a sua companhia e a mesa do seu café.

Há muito tempo que não vou a este café, provavelmente, a mesa onde se sentava estará vazia, ou ocupada com outras solidões, mas a lição de dignidade que este velho, muito velho, me deu,ainda me deixa arrepia...

Sim, ler não tem de ser um ato solitário e beber um chá também não!

sonia disse...

Anônimo: esse seu texto é de comover: define a dignidade de um ser humano!