quinta-feira, maio 31

Pornografia



Folheava um livro, quando senti a presença de alguém à minha frente. Levanto a cabeça e atino com um cliente com um ar sisudo, testa enrugada e olhar inquisitivo. Vestia um fato cinzento, uma camisa, imaculadamente branca, apertada até ao último botão do colarinho e um crucifixo prateado destacava-se brilhando na lapela do casaco. Julguei ser um padre, suspeita que ficou confirmada assim que levantou a voz:
- Agora vendemos pornografia? – Disse-me o Sr. padre, apontando para o livro que eu segurava, aberto, entre as mãos.
Não me engasguei e, inabalável, respondo:
- Não sei se o Kamasutra pode ser considerado um livro pornográfico. Eu diria antes literário!
A minha resposta não foi satisfatória e o cliente contra-ataca.
- E essas gravuras que tão obscenamente ostenta, não são pornográficas?
- Não, são arte.
- Ah, arte!... O senhor deve sofrer de alguma perversão sexual para achar que essas ilustrações podem ser consideradas arte?
Mantenho a calma, arquitecto um ardil e contraponho:
- Meu caro senhor. Posso dizer com o orgulho que de todas as perversões sexuais não padeço da mais estranha.
O padre, não resistindo à curiosidade, inquire:
- E qual é a mais estranha, posso saber?
- O celibato!
Ao ouvir a minha resposta, o padre balbuciou qualquer coisa, virou-me as costas e eu senti-me excomungado.  

Jaime Bulhosa

4 comentários:

Alexandra disse...

Ahah boa resposta. Quem semeia ventos...
No entanto, por momentos pensei que o Sr. Padre fosse responder: "Olhe que nem todos os padres o praticam...."

Alexandra disse...

Ahahah que boa resposta. É caso para dizer "quem semeia ventos...."
Mas por instantes pensei que o Sr. Padre fosse responder: "Olhe que nem todos os padres o praticam.."

(Obrigada pelas partilhas)

Borboleta disse...

brilhante!

Anônimo disse...

Maravilhosa resposta!