segunda-feira, setembro 24

É uma opção



Quando me fazem uma das perguntas mais frequentes numa livraria: «queria um livro para alguém que não gosta de ler», imediatamente penso que é o equivalente a pedirem-me uma cerveja sem álcool, um café sem cafeína ou um cigarro electrónico sem nicotina, isto é, um livro sem enredo, sem personagens, sem sentimentos, sem emoções, sem ideias. O pior é que se abre uma multiplicidade de hipóteses das quais não posso fugir, os livros editados para pessoas que não gostam de ler são, paradoxalmente, a maior fatia da oferta que existe no mercado. Basta passear um pouco por uma grande superfície e verificar a grande quantidade de livros iguais no seu aspecto estético e temático, para perceber que essa é a lei que impera. Não quero parecer elitista ao criticar a opção de se ler esse tipo de livros, é legitimo fazê-lo. Mas sejam quais forem os prazeres de desfrutar de um livro, enquanto objecto que nos permite levitar para outro mundo, esta não pode ser a única abordagem da leitura. Um livro pode, de facto, mudar a nossa vida. Não é o trabalho de um escritor uma espécie de instrumento óptico que é oferecido ao leitor para lhe possibilitar encontrar aquilo que, sem a ajuda do livro, nunca teria conseguido sentir sozinho? Não será um livro a descoberta do eu através dos outros? Já Marcel Proust dizia que é sempre mais interessante citar os outros do que nos citarmos a nós próprios. Para Orhan Pamuk um livro, para além do seu enredo e das personagens, tem que ter uma ideia central, aquilo a que Pamuk chama o centro do livro ou desígnio do livro. A função de um livro não é apenas a de nos dar prazer, ou seja, um analgésico, de efeito efémero, que ajuda a minimizar a solidão ou a passar o tempo enquanto viajamos de autocarro ou de comboio; pode, pelo contrário, criar-nos angústia, medo e dúvida, mas também nos pode dar respostas. Porém, parece que a maioria das pessoas quer apenas um sucedâneo, um placebo, algo que simplesmente as distraia e seja inócuo. É uma opção.

Jaime Bulhosa

12 comentários:

R.B. NorTør disse...

A opçao de "um livro para alguem que nao gosta de ler" também pode ser encarada como uma oportunidade de se tomar uma atitude pedagógica e mostrar à pessoa que se calhar tem andado a ler as coisas erradas. Provavelmente essas coisas sem enredo de consumo massificado.

Pessoalmente, como introduçao à leitura gosto sempre de remeter para um qualquer livro de contos do Torga. Estao longe de serem desprovidos de enredo e/ou personagens, sao escritos de forma profundamente acessível sem que isso seja sinonimo de iletracia, sao contos pelo que nao "maçam" e podem ser lidos a caminho do trabalho.

redonda disse...

Estava a pensar o que escreveu muito melhor R.B.NorTor (não consegui pôr o tracinho no último o), em como poderia ser um desafio arranjar um livro que fizesse com essa pessoa passasse a gostar de ler...

Anônimo disse...

Proust escreveu algum romance?! Se sim, qual? e existe alguma edição recente desse romance?...

Pinóquio disse...

Cá para mim, ou se nasce a gostar de ler, ou não se gosta,simplesmente. Tal como há pessoas que não gostam de caracóis, e que por muito que os outros insistam, não os irão comer de forma habitual e sistemática. Sou professora de Língua Portuguesa e posso dizer que consegui que muitos alunos começassem a ler livros, embora não gostassem. Não acredito é que tenham passado a gostar e que continuem a ler pela vida fora. Ou se gosta e nos «apetece», ou não se gosta!

R.B. NorTør disse...

Cara Professora, o gosto por algo é algo que se cultiva e muito me choca o fatalismo que coloca na sua funçao e o predeterminismo do gostar de ler.
Parece-me que mais importante, e quiçá mais pertinente para o tema lançado pelo Jaime, seria o de falar dos casos em que conseguiu pôr alunos a gostar de ler e de como o havia conseguido.

Amelie disse...

Não acredito na teoria na qual já nascemos com gostos predefinidos, sei por experiência própria, que quando correctamente cultivados e orientados definem os rumos das nossas vidas. A leitura é uma delas, cultiva-se e deve ser orientada por livros que aproximem o publico da palavra escrita.
Quem tem boas leituras distingue-se sempre dos demais e acho que apesar do fast food literário já vão aparecendo várias pessoas com boas leiruras

Anônimo disse...

Acho que ao oferecer um livro a alguém que normalmente lê pouco nunca se deve dar um livro escolhido por ser mais fácil, ou mais instantâneo, mas um escolhido por se conhecer a pessoa e saber que a ela lhe vai dizer muito, e que por ser um bom livro lhe abrirá novas portas sobre a literatura e sobre a vida.

SEVE disse...

Oh Pinóquio

Perdoe-me mas... parece-me algo como falta de vocação, por estas e por outras é que esta última geração é uma cáfila de analfabetos, que nem sabe ler nem escrever, muito menos compôr uma frase (e eu sei o que digo)!

Esta de: ou se nasce a gostar de ler, ou não se gosta,simplesmente

é de bradar aos céus.

Minha cara amiga:

Aprende-se a gostar.!

Eu aprendi a gostar de música
Eu aprendi a gostar de ler...

Anônimo disse...

Qualquer livro de Carl Sagan ou João Aguiar é uma boa aposta para começar.
Se não gostar, dificilmente vejo um futuro leitor.

Claudia disse...

Muita feliz sua comparação de um livro (para quem não gosta de ler) com um placebo.

disse...

A leitura é algo muito pessoal. Lembro-me de ler em miúda aqueles livros para crianças da Patricia e de outros mais tarde que me emprestaram mas que nada me diziam. Foi preciso haver um primeiro que me fascinou para eu compreender que nem todos os livros nos tocam, nem todos vão ao nosso encontro. Por vezes um livro numa determinada altura pode dizer-nos muito e noutra altura nada. Por vezes pegamos num livro que parece não “entrar” e noutra altura quando pegamos nele não conseguimos mais parar.
Aquele livro foi um catalisador que me levou a gostar de ler e a não mais parar.

Curiosamente esta semana, 3 amigas minhas que não costumam ler muito, pediram-me para lhes aconselhar e emprestar um livro. Para cada uma delas acabei por aconselhar dois a cada uma, precisamente porque é importante que haja uma ligação, uma empatia entre o que nós e o livro e assim se um não lhes agradasse poderiam tentar o outro.

Li o que escreveu aqui a professora de português. E sobre o ensino da língua portuguesa só tenho uma coisa a dizer, afugenta mais que cativa. Não sei se tive azar com todos os professores de português que tive ao longo da vida, se é do método de ensino, se é dos conteúdos escolhidos, se é a falta de paixão… mas não foram eles que me levaram a gostar de ler.
Se os alunos na escola não são cativados para a leitura e se em casa não têm pais que gostem de ler … o que os moverá para a leitura? O acaso?
Mas isso foi mais no meu tempo, a escola de agora tem uma abordagem muito diferente, muito mais interessante espero.

Sara disse...

Eu sempre li e nunca tive ninguém para me incentivar ou para me cultivar o gosto...Seria muito difícil aliás, pois que nem tinha livros em casa...Se já nasci com este gosto? não sei...No meu caso foi assim que aconteceu, no entanto acredito na eficácia dos bons exemplos: se os pais lerem e incentivarem os filhos a faze-lo também (sem forçar..., se na escola houver igual incentivo...Já encontrei crianças a ler nos transportes públicos o que muito me comove, pois serão os leitores de amanhã...Enfim há quem tenha mais queda para as letras, mas de uma maneira geral acho que todos podem aprender a gostar de ler sejam adultos ou crianças, ás vezes basta aparecer o livro certo...

cumprimentos