quinta-feira, novembro 29

O Dia das Livrarias



Amanhã é o Dia das Livrarias e porque uma livraria não existe sem livreiros:

Livreiros?... Quando digo “livreiros” não me refiro às pessoas que casualmente ou temporariamente vão vendendo livros um pouco por toda a parte (sem qualquer tipo de desconsideração para com estas). Os livreiros, e eu conheço alguns, são aqueles que adoram livros, conhecem muitos livros e lêem outros tantos, mas são sobretudo aqueles que, por passarem tanto tempo manuseando livros, se começam a confundir com eles. São como os casais, cujo fácies, após tantos anos de casamento, se assemelha. – Estão a ver? Um livreiro é praticamente um livro, ou melhor, bocadinhos de muitos livros. Não dos novos, os de quinze minutos de fama, mas daqueles com folhas amareladas, fechadas que se abrem com uma faca especial e que fazem comichão no nariz, do pó que levantam. Daqueles que as traças (mais conhecidos por peixinhos-de-prata) sabem que são melhores para alimento, ou que, como dizia George Orwell, os tais onde as moscas azuis escolhem para morada eterna. Os livreiros, porque já não se vendem, só raramente se encontram nas prateleiras das livrarias. Porém, quando os encontramos, dificilmente passamos sem os consultar. Se os abrimos a surpresa é grande: cheios de histórias para contar, deles, dos outros e dos livros. Pode ser uma pequena estória, um diálogo que ouviram, um poema que leram, um aforismo muito antigo, lido e repetido em tantos livros que deixou de ter dono e passou a ser deles. Normalmente são cultos, não tanto pelo que lêem, embora leiam muito; mas muito mais pelo que ouvem. - Só provavelmente num confessionário ou num bar se ouve mais. Os livreiros são aqueles que melhor têm a noção da futilidade ou da importância dos livros. Sabem que os livros também são uma mercadoria que se compra e se vende e de que eles próprios, livreiros, fazem parte. Os livreiros são livreiros porque têm uma dupla finalidade, uma delas é pública, a outra é, muito secretamente, pessoal. A pública é a de vender livros, incentivar a leitura e divulgar o livro, fazendo-o ao partilhar com os outros as suas próprias leituras, organizando tertúlias, eventos literários, cursos, etc. A outra, como dizia um editor meu conhecido, no fim da sua vida: «Eu errei sucessivamente de profissão, o que eu queria era estar junto dos livros para poder ler o que me apetecesse.»

Jaime Bulhosa

7 comentários:

Daniela Vieira disse...

Texto lindo, como sempre Jaime. Parabéns!
É o que acham as pessoas que visitam as bibliotecas também acham. Que passamos o dia todo a ler. Engraçado

Pó dos Livros disse...

Obrigado, Daniela Vieira. ;)

Augustus disse...

Excelentíssimo texto! Gostei bastante, pois resume um sentimento tão complexo que, creio eu, todos nós, leitores, sentimos.

Carmen Figueira disse...

A última frase... faz-me encher os olhos de água. Que bom ser um pouquinho dos livros. Que bom seria ser muito.
Obrigada Jaime.

Guerreiro disse...

Um texto que me faz relembrar porque sou livreiro!
E a última frase que me recorda porque apesar do dificil que é o reconhecimento e o pouco que se ganha neste mundo eu não deixo de ser livreiro.

Maria Isabel Montes disse...

Belo texto!
Em tempos, nas férias, trabalhei num arquivo. Era delicioso sentir-me acompanhada na solidão de um sótão cheio de livros, documentos... Era feliz!

http://isabelmontes-textosimagens.blogspot.pt/

Rui Vasconcelos disse...

Só agora tive a oportunidade de ler este texto, e foi um prazer. Comecei há pouco tempo (quase um ano), uma aventura como livreiro - e não se trata de concorrência, primeiro porque estou em Braga, e segundo porque é uma livraria especializada em temas de religiões, cristianismo, etc. E, de facto, o maior prazer é poder conhecer os livros, conhecer a sério, poder propô-los, apresentá-los... Um abraço e bom trabalho!