quinta-feira, dezembro 15

Natal em Portugal



Quando o Rafael entrou em casa do amigo esbugalhou os dois olhos que cintilaram ao ver a árvore de natal.
- Olha, olha tanta luz e bolinhas de cor!
No quarto do amigo foi ainda mais espectacular, bonecos, piões, jogos, livros e muitos outros brinquedos que nunca tinha visto na vida, a não ser talvez nas montras das lojas, onde quase nunca entrava. Tudo aquilo era para ele extraordinário, onírico, só mesmo nos contos de fadas. Nem queria acreditar que poderia brincar com tanto brinquedo durante todo o fim-de-semana. Que sorte, pensava ele, pois tinha sido convidado para ficar dois dias inteirinhos na casa da mãe do melhor amigo da escola primária. Embora a casa do amigo não fosse uma casa de ricos, longe disso, para os olhos do Rafael era como se fosse um daqueles palácios onde vivem os reis e as princesas, porque tudo cheirava a perfume, a limpo e os objectos da casa reluziam e certamente seriam de marfim, prata ou de ouro, até o gato era aristocrático. O Rafael estava feliz, notava-se no seu semblante. O dia passou num instante e quando o Rafael deu pela noite perguntou com ar triste:
- Tenho que ir já embora?
- Não Rafael, tu ficas cá a dormir.
- Viva, viva, não acredito!
-E sabes, antes de irmos dormir, vamos todos jantar ao centro comercial.
No centro comercial o deslumbramento foi ainda maior, as montras todas engalanadas com enfeites de natal, fizeram o Rafael abrir a boca maravilhado, agitado, com tanta solicitação colorida. Via-se que o Rafael não estava acostumado a ir a centros comerciais. Os corredores tinham bonecos mecânicos, ursos polares, renas, lobos e claro, o Pai Natal que se mexia sozinho. O Rafael teve medo de lhes tocar, pensou que eram verdadeiros. Passearam ao longo de muitas montras de lojas, mas só entraram numa, na livraria. O Rafael nunca tinha visto tanto livro junto, em casa dele não havia livros. Por isso, a mãe do seu melhor amigo ofereceu-lhe um livro. O Rafael ficou surpreendido e exclamou:
- Um livro! Que bom, é para eu brincar!?...
- Sim, é para tu leres.
Voltaram para casa e o domingo foi também de muita alegria. Quando chegou a hora de ir embora, o Rafael teve um gesto estranho que perturbou a mãe do melhor amigo da escola, de sobrancelhas caídas e olhos no chão o Rafael devolvia o livro que lhe tinham oferecido e que até ali não tinha largado.
- O que estás a fazer Rafael? Não gostaste do livro?
- Não, não… gostei muito.
- Então porque o estás devolver?
- Porque não é meu.
- Não é teu!?... Claro que é teu!
O Rafael sem querer acreditar, pergunta:
- É meu para  sempre?

Obviamente o Rafael não está habituado a receber prendas e pensou que a oferta do livro não passasse de um empréstimo. E foi mais ou menos por estas palavras que uma amiga minha me contou o seu fim-de-semana com o Rafael.
Rafael (nome fictício porque neste país a pobreza esconde-se) é um menino de sete anos, olhos grandes, negros, tez morena, expressão viva e inteligente. Uma criança como muitas outras, ou quase. O Rafael está a ter muitas dificuldades de aprendizagem, fruto, com certeza, do drama que está a viver. O Rafael, até há cerca de um ano, vivia com a mãe e com o padrasto, mas infelizmente tanto a mãe como o padrasto ficaram sem emprego e consequentemente foram desalojados. Não tendo mais soluções a família dividiu-se. A mãe do Rafael foi viver, de favor, em casa de uma amiga onde não cabe o Rafael e o padrasto, por sua vez, foi viver com um familiar e levou o Rafael.
Dramas destes sempre houve, o que se passa é que agora parecem cada vez mais e estão bastante mais perto de "nós".

Jaime Bulhosa

Nenhum comentário: