quinta-feira, março 29

Geniociclopédia IX


Há livros bizarros? há!
Há livros que são pedagógicos e outros que são contraproducentes? há!
Há pedidos estranhos? há!
E, não sei porquê, eles vêm todos ter com a Pó dos Livros. No entanto, o propósito deste livro pode muito bem vir a revelar-se uma impossibilidade.


terça-feira, março 27

Um livro para uma vida



Entra na livraria um cliente, não tinha nada de peculiar, era um senhor de classe média, como muitos outros. Porquê de classe média? Bem, é o que se costuma dizer quando as pessoas não se distinguem dos outros pela roupa que vestem. Todavia, este pormenor não tem a menor importância para a nossa pequena história. 
Ora, estava eu a dizer, entra um cliente, que, apesar de não ter nada de característico, me chamou a atenção por ser a terceira ou quarta vez, no espaço de quatro anos de existência desta (modéstia à parte) belíssima livraria, vem comprar o mesmo livro. Por curiosidade, perguntei-lhe:
- Peço desculpa pela intromissão, mas porque é que compra sempre o mesmo livro?
Sem ficar melindrado o senhor responde-me:
- Porque o exemplar que eu releio, sistematicamente, fica desfeito de tanto uso.
Quando lhe perguntei porque continuava a reler sempre o mesmo livro, respondeu-me:
- Gosto muito dele, porque haveria de ler outros.


Jaime Bulhosa

segunda-feira, março 26

Erro


(erro corrigido à mão)


Gosto de ler livros usados, com pequenas notas coloridas nas margens, dedicatórias, sublinhados nas frases que alguém considerou importantes, folhas dobradas nos cantos, objectos escondidos dentro do miolo. Tudo que possa indicar a presença de outro leitor, para além de mim, fascina-me. É como se aquele livro tivesse várias vidas, vários conteúdos e muitas histórias para contar.
Outro dia folheava um livro do início do século vinte que continha, como marcador, uma carta dirigida a um fulano brasileiro. A carta para além dos cumprimentos habituais continha um pedido simples. Pedia ao tal fulano que tentasse comprar, através dos seus conhecimentos, nos sebos (alfarrabistas) do Rio de Janeiro, uma segunda edição das Poesias Completas de Machado de Assis, da livraria Garnier, 1902. Até aqui nada de extraordinário. No entanto, o pedido tinha algumas nuances. Não podia ser uma tiragem qualquer, teria que ser a primeira tiragem impressa em França. Parece que nessa primeira tiragem teria escapado, à revisão, um pequeno erro. No prefácio, Machado de Assis terá escrito «…cegara o juízo…». Contudo, o tipógrafo francês trocou o e por um a. Como devem calcular o autor não deve ter gostado nada da brincadeira. O pior é que só percebeu o engano quando já estavam vendidos alguns exemplares. O erro foi alterado nas tiragens seguintes. Contudo, foi esse pequeno pormenor que transformou os livros, com o erro, num dos objectos mais valiosos e apetecíveis para um bibliófilo. Ora, era exactamente um exemplar dessa tiragem que o autor da nossa carta tanto desejava.  
E foi assim que tomei conhecimento desta verídica história.

Jaime Bulhosa

Futuro


Também o futuro, noutros tempos, era melhor.

livreiro anónimo depois de ler o jornal

sexta-feira, março 23

Debate Bolonha 2012



Amanhã,  24 de Março às 11h00, na Pó dos livros, debate sobre "Feira Internacional do Livro Infantil Bolonha 2012", com Francisco Vaz, André Letria, Carla Maia de Almeida e Eduardo Filipe, moderado por Sara Figueiredo Costa.

quinta-feira, março 22

Ler com olhos de ver

Ainda na senda das cerejas, hoje temos um cesto cheio delas. A convidada especial é Sara Amado que arruma e desarruma a Prateleira-de-baixo e que aqui na Pó dos livros tanto gostamos de visitar. 
Decidimos por isso trocar de prateleiras e transportá-la virtualmente até aqui para nos deixar as suas sugestões.
Escolhemos um dia especial porque as prateleiras também crescem e hoje é dia de aniversário por lá. Sejam bem-vindos!

"Ler com olhos de ver"

Nunca pensei ser tão difícil fazer uma montra, não a atulhar com cem mil livros. Escolher antes um tema, uma lógica qualquer que diga a quem passa "entre, garantidamente, estes livros não ganharão ". Mas escolher é tão difícil, implica deixar de fora tantos livros belíssimos. Terão sempre a prateleira-de-baixo (cheia de hífens à moda antiga) de onde saem de vez em quando, à medida que a vida acontece. Faço então hoje uma montra poética, espartana, sintética, pouco nacionalista- e por isso bastante provocatória - a pensar nos leitores que ainda não leem (ou que ainda não leem palavras). E estico a lista até aos 7 porque é há 7 anos que escolho livros para os habitantes cá de casa, razão primeira da prateleira-de-baixo.


"0 - Jeu de formes (de Hervé Tullet), para ler com os olhos, com as mãos e, claro, com os dentes, de pernas para o ar ou de lado, de trás para a frente ou de frente para trás.



1 - Imagier des saisons (de Francesco Pittau+Bernadette Gervais), para virar as páginas e ver ao mesmo tempo, por dentro e por fora, o mundo inteiro em zoom, cheio de nomes, cheiros, cores e minúsculos importantíssimos pormenores.

2 - Creature (de Andrew Zuckerman), para pôr a mão na boca do leão, passar o dedo nos dentes do crocodilo, comparar os dedos às penas da águia imitando, claro, o som de cada animal à medida que se passa a página.

3 - Almost everything (de Joelle Jolivet), para conhecer todas as palavras do mundo e ver que os livros (e o mundo) são mesmo uma coisa GRANDIOSA.


4 - I numeri (de Luigi Vernonese), para contar pelos dedos os dentes, os limões, os degraus, as lâmpadas, os sinais, os carros, as janelas e o tempo que falta para chegar a casa dos Avós.



5 - Immaginario (de Blex Bolex), para começar a ler em maiúsculas, adivinhando o que são aquelas magníficas imagens que, quase sem nada, mostram tudo. E deitar-se a pensar porque é que o nudista está ao lado do homem invisível, ou porque é que a contorcionista faz parelha com o canalizador.



6 - Il ne faut pas confondre... (de Bruno Gibert), para depois de conhecer as palavras poder baralhá-las, brincar com elas e descobrir os seu sons e sentidos escondidos, traiçoeiros.



7 - Robinson Crusoe (de Alberto Morales Ajubel), para depois de saber ler não esquecer que as imagens também falam e que as aventuras ainda agora começaram. "


*texto de Sara Amado.

quarta-feira, março 21

Um poema curto


Um dos mais vezes encurtados poemas de referência da língua inglesa é a 4.ª secção do poema de T.S.Eliot The Waste Land, o qual foi drasticamente reduzido por Erza Pound no seu poema il miglior fabbro, a dez linhas elípticas. Mas o poema geralmente considerado como o mais curto poema narrativo na língua inglesa é Fleas” (pulgas):

Adam
Had’em

(tradução: Adam tinha-as)

Nota: Autor desconhecido e completamente não canónico.

Dia da Poesia



«Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar. Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece. Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos. Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe. Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estagio esplêndido de felicidade.»




Nota: Alertados por uma leitora do nosso blogue, a quem agradecemos a correcção, aparentemente este poema não é de Pablo Neruda, como se pode verificar aqui.

terça-feira, março 20

Bolonha

As cerejas de hoje vêm em forma de entrevista e também de homenagem:

José Oliveira

*entrevista retirada daqui.


Obras completas


- Queria as Obras Completas.
– De quem? por favor.
- O quê!... Não me diga que há mais de que um livro com o mesmo título?

segunda-feira, março 19

Montra Bolonha 2012


Um livreiro festeja com livros, fala deles, mostra-os, conhece-os, põe-nos em exposição. E assim fizemos, a montra do infantil da Pó dos livros é dedicada à Feira do Livro Infantil Bolonha 2012. Ilustradores, autores, editoras, alguns dos livros premiados, muitos livros: são as nossas cerejas.

Como as cerejas, tudo sobre a participação portuguesa em Bolonha.


Geniociclopédia VIII


Há livros bizarros? há!
Há livros úteis e inúteis? há!
Há pedidos estranhos? há!
E, não sei porquê, eles vêm todos ter com a Pó dos Livros. No entanto, algo me diz que em Portugal, todos deveríamos ler este livro:



Jaime Bulhosa

Bolonha 2012

A Feira do Livro Infantil Bolonha 2012 começa hoje. Aqui na Pó inauguramos os festejos com convidados especiais - a editora Planeta Tangerina que numa visita virtual à Pó dos livros nos deixou a sugestão de três livros.

3 livros de 3 continentes

Ainda não vi nenhum destes livros e talvez seja estranho recomendar livros que nunca se folhearam (estranho não, estranhíssimo). Ainda assim, entre os livros que ultimamente me têm passado pelos olhos — através dos sites ou catálogos das editoras — estes são alguns dos que me ficaram na memória. Não pelo conteúdo, claro, mas pelas capas, pelos títulos, pelas ideias que lhes serviram de base ou pelas duas ou três páginas disponíveis que me abriram o apetite.

Para além de nos dar a conhecer livros absolutamente novos, as idas à Feira de Bolonha servem também para confirmar (ou não) as expectativas que temos sobre alguns livros. Estes que aqui deixo não são, portanto, uma recomendação, mas antes uma partilha de curiosidade (se ficarem desiludidos, pensem que, muito provavelmente, a mim me irá acontecer o mesmo...).



O primeiro é um livro da Tara Books, editora indiana conhecida pelos seus livros manufacturados, desenhados e impressos segundo técnicas tradicionais.
A imagem da capa é linda (pintada ao estilo Mithila), mas o que me conquistou foi o título: “Hope is a girl selling fruit”.
Não sei quase nada sobre este livro: não tenho a certeza se a narradora é a própria autora, não percebo se há uma história ou se o livro é uma espécie de diário. Sei apenas que tudo começa com uma viagem de comboio, no momento em que a narradora põe o pé na gare de uma cidade desconhecida (bom começo...).


O segundo é um livro de uma editora polaca, a Dwie Siostry, com livros e coleções de uma qualidade gráfica invulgar (os textos não consigo avaliar).
Este livro que escolhi faz parte de uma coleção sobre Arte e Arquitetura dirigida aos leitores mais novos. É um título acabado de sair, sobre Arte Contemporânea e, ao longo das páginas, apresenta criações de artistas contemporâneos que incluem explosões, edifícios cortados ao meio, instalações com cadeiras, desafios de rafting ou conversas com animais. O livro explica porque é que tudo isto pode ser considerado arte, procurando levar aos mais novos a ideia de que “a arte pode ser divertida e o artista, um mágico que encanta a realidade” (a propósito, o título, “SZTUKA”, significa “Arte”).





Por fim, um livro sem palavras que já não é propriamente novo, mas que continua a ser uma pérola: chama-se “Zoom”, o autor é o húngaro Istvan Banyai, mas foi editado pela primeira vez pela americana Viking (1995).
Começamos perto, com um detalhe de tons alaranjados (que na página seguinte percebemos tratar-se da crista de um galo) e depois vamo-nos afastando, transformados em lente de máquina de filmar, cada vez mais depressa até chegarmos aos confins do espaço. Ao virar de cada página descobrimos que o que pensávamos ser uma coisa afinal é outra; que tudo pode mudar quando nos apercebemos do contexto global de cada coisa; que o que parecia real é apenas uma imagem (uma imagem de uma imagem de uma imagem).
Um livro que nos deixa suspensos do princípio ao fim e que se recomenda para leitores dos 0 aos 100.
(Já agora, os outros dois também: quando os livros são bons porque é que hão de ter limite de idade?)

sexta-feira, março 16

Feira Internacional do Livro Infantil Bolonha 2012



Nas últimas semanas, as sessões sobre livros infanto/juvenis "Um livro para..."  coordenadas por Andreia Brites têm animado o andar debaixo da livraria. 
O calor e o sol fazem-se sentir e é impossível não pensar em cerejas. Sim, a "Feira Internacional do Livro Infantil Bolonha 2012" está a chegar e este ano Portugal é o país convidado. 
Nada melhor do que festejar! 
Já espreitámos a lista dos livros premiados e vamos ter alguns na livraria. No blogue esperam-se muitas notícias e outras surpresas, na montra os livros vão andar em constante movimento (alguns novos mas também antigos). 
E o melhor fica para o fim, o debate sobre "Feira Internacional do Livro Infantil Bolonha 2012" no dia 24 de Março, sábado às 11h00 com Francisco Vaz, André Letria, Carla Maia de Almeida e Eduardo Filipe, moderado por Sara Figueiredo Costa.

Para quem quiser começar a dar os primeiros passeios pela Feira:

Bologna Children´s Book Fair 2012 http://www.bolognachildrensbookfair.com/.


Mas não fica por aqui. Nas semanas seguintes há mais actividades relacionadas com o Infantil:

"Vamos brincar às palavras": oficina de escrita criativa para crianças dos 7 aos 10 anos de idade por Ana Oom. (de 28 a 31 de Março; 15h00-17h00; 30.00 € ; mínimo 5 participantes;
inscrições pelo tel: 217959339 ou por e-mail: podoslivros@sapo.pt)

Novas sessões de "Um livro para..." orientadas por Andreia Brites, a partir de 23 de Abril.


*autoria das imagens Atelier Silvadesigners

quinta-feira, março 15

LANÇAMENTO {CINE QUA NON #5}


Hoje, 15 Março - 18h  na Pó dos Livros

Apresentação de Jorge dos Reis (FBAUL), Margarida Vale de Gato (CEAUL) e Isabel Fernandes (CEAUL).

A Cine Qua Non é uma revista de artes do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (CEAUL) construída por movimentos escritos que cruzam reflexões, críticas ou ensaios, movimentos que relacionam a música às artes plásticas, a dança ao teatro, o cinema à literatura. Sem aspirações temáticas, esta publicação tem como objectivo oferecer aos seus leitores uma abordagem editorial única que junta artistas, investigadores e docentes, portugueses ou estrangeiros, que se manifestam em textos de natureza diferenciada sobre as mais diversas formas e expressões artísticas. A Cine Qua Non é desde o seu primeiro número impresso uma revista totalmente bilingue (português/inglês) e apresenta-se em dois formatos: uma versão online e uma versão impressa.

quarta-feira, março 14

A Zona de Desconforto


Nas suas próprias palavras, Jonathan Franzen era o tipo de rapaz que tinha medo de aranhas, bailes do liceu, urinóis, professores de música, bumerangues, de raparigas populares - e dos pais. Não tinha nada contra os miúdos totós, a não ser o pânico de que o tomassem por um deles, destino que resultaria para ele na imediata Morte Social. Encarando a puberdade da mesma forma que um mestre falsário encara uma encomenda particularmente difícil, fingia-se um tipo que dizia muitas vezes "merda" com a maior naturalidade e que não gostava de fazer cálculos na sua nova calculadora Texas Instruments de seis funções. 
A Zona de Desconforto é a memória íntima que Franzen guarda do seu crescimento dentro de uma pele hipersensível, de "uma pessoa pequena e fundamentalmente ridícula", passando por uma adolescência estranhamente feliz, até um adulto de paixões fortes e inconvenientes. A sua história pessoal de uma juventude vivida no Midwest e uma idade adulta vivida em Nova Iorque é condimentada pela mesma mistura de ironia e afecto que caracteriza a sua ficção; o resultado é um retrato fascinante de um americano que harmoniza de forma ímpar a razão e o coração.

edição: Dom Quixote
título: A Zona de Desconforto
autor: Jonathan Franzen
tradução: Francisco Agarez
n.º pág.: 229
isbn: 9789722048996
pvp: 14.90€ 

segunda-feira, março 12

Um cavalheiro



Um cavalheiro de aparência distinta, vestido de forma diferenciada, entra na livraria e pede com ar circunspecto:

- Eu queria um livro para oferecer a uma mulher séria.
O livreiro coça a cabeça, tentando ir buscar no fundo do seu conhecimento livresco uma resposta satisfatória para dar. Depois de alguns segundos de genuíno raciocínio, o livreiro responde:
- Meu caro senhor, lamento! Infelizmente o que pretende não existe.

Como se lêem livros sem texto?

Hoje, das 19h30 às 21h00, vamos falar sobre livros sem texto.É a última das primeiras 4 sessões de Um livro para,  por Andreia Brites. Ainda há vagas, apareçam.

sexta-feira, março 9

Vamos brincar às palavras: oficina de escrita criativa para crianças





Escrever afinal pode ser divertido e... criativo. Nesta oficina, para crianças entre os 7 e os 10 anos de idade, vamos brincar às palavras com as palavras e divertir- nos com  jogos que têm como objetivo desenvolver o prazer da escrita. Vamos escrever, reescrever, construir e criar...

Vamos brincar às palavras: oficina de escrita criativa para crianças dos 7 aos 10 anos de idade, por Ana Oom
de 28 a 31  de março | 15h00 - 17h00 | 30.00€ | mínimo 5 participantes
inscrições pelo tel: 21 795 93 39 ou por e-mail: podoslivros@sapo.pt

Convite

Amanhã, Sábado, 10 de Março, às 16h00,  na Pó dos livros, António Carlos Cortez apresenta o  livro de poesia de Tiago Nené Relevo Móbil Num Coração de Tempo, editado pela Lua de Marfim. 




Ficam dois poemas, para abrir o apetite:


O BOM POETA
a António Ramos Rosa

o poeta inventa um leitor abstracto,
a sua extensão lível.
o poeta não consegue ler os seus poemas,
o bom poeta apenas escreve os seus poemas;
escrever poemas sem ler os poemas que se escreve
é perfeitamente possível
se o poeta estiver demasiado perto de cada palavra.
o grande poeta dorme dentro de cada palavra,
e eu não me conheço quando escrevo isto.
dentro de que palavra estarei?
que sílaba servirá de travesseiro aos meus sonhos?
creio que as primeiras palavras que escrevi
diziam que o poeta inventa um leitor abstracto,
não me lembro da versificação certa.
não importa.
apenas exponho permissões em cada sentimento,
e é isto o poema:
um grande sentimento amplificando
a inconfundível prosa de toda a vida.

*

JARDINS HAMARIKYU


nos jardins hamarikyu
onde o céu não é longe
saímos de barco trazendo beijos que
apanhámos no lago,
bem junto ao último poste de luz,
para lá do fim como antes o conhecíamos;
lá se escrevem poemas com mil anos
sem importar quem os vai ler,
e lá os nossos beijos, uma vez libertos,
brincam na relva atrapalhando-se uns aos outros,
como pessoas doentes de infância,

hoje passaram mil anos
e voltámos ao mesmo poema que
havíamos escrito nos jardins hamarikyu,
à procura de alguns beijos perdidos
no nosso oriente oculto;
alguns habitantes de tóquio olham-nos confusos,
lêem-nos nos olhos um intemporal esquisito e uma
omnipresença pecadora, um dia à luz de vela;
e agora revemos tudo com as mãos entrelaçadas,
agora apagamos a luz,
e entramos no mesmo sonho.

Tiago Nené
in Relevo Móbil Num Coração de Tempo
Lua de Marfim, 2012

quinta-feira, março 8

Hoje é dia Internacional da Mulher.


E não tenho nada para dizer. Até porque, às vezes, é melhor estar calado.

livreiro anónimo

quarta-feira, março 7

Há coisas...




Há coisas do diabo, levadas da breca, umas com graça, outras sem graça nenhuma. Não sei com classificar esta, mas encontrar uma Licença Anual para uso de Acendedores e Isqueiros, com o imposto de selo da República e tudo, dentro de um livro usado com o título Holocausto, é, no mínimo, bizarro.

Jaime  Bulhosa

terça-feira, março 6

Ofertas e brindes

Entra um cliente, olha em volta, faz um esgar de desagrado, parece não encontrar o que procura e pergunta:
- Tem livros com ofertas e brindes?
Pensei que talvez o cliente estivesse à procura de livros, género bolo-rei.
- Bem, na verdade, não tenho livros… como hei-de dizer, nessas condições.
- Ai não… Francamente!
E foi embora.



Jaime Bulhosa

A Vida Privada de Maxwell Sim


Maxwell Sim bateu no fundo. A sua vida pessoal é um vazio. Ele tem 70 amigos no Facebook mas ninguém com quem falar. Mas tudo muda graças a uma disparatada proposta de trabalho: conduzir um carro carregado de escovas de dentes de Londres até às remotas ilhas Shetland. Um percurso longo que Maxwell decide preencher com uma série de visitas surpreendentes a figuras do seu passado.  Acompanhado por "Emma", a voz feminina do seu GPS, com quem estabelece uma peculiar relação, ele não imagina que está a iniciar uma viagem íntima que o mudará para sempre.

edição: Dom Quixote
título: A Vida Privada de Maxwell
autor: Jonathan Coe
tradução: Elsa T. S. Vieira
n.º pág.: 345
formato: 15.5x23.5cm
isbn: 9789722049009
pvp: 17.90€ 

segunda-feira, março 5

Clube da Leitura



Numa altura em que as livrarias e as editoras tentam conquistar mais leitores e vender mais livros, o site Clube da Leitura oferece-lhe várias ferramentas fáceis para divulgar leituras e conquistar mais leitores. Concebido com tecnologia portuguesa este site é o primeiro site social português relacionado com livros. O objectivo do site é criar Clubes de Leitura que se organizam regularmente nas principais cidades de Portugal e Brasil (porque está em língua portuguesa). Existem planos para promover o site na língua inglesa e espanhola até ao final do ano. Com novas funcionalidades e um novo design e comunicação, este site será um ponto de encontro para novos e fiéis leitores. 

Curiosidades literárias


Num prefácio de Novelas Exemplares, de Cervantes, publicado em 1946, Jorge Luis Borges evoca uma passagem das Mil e Uma Noites. Nela vemos um génio aprisionado pelo rei Suleimã (Salomão) num pote de cobre e atirado para o fundo do mar.
O génio jura enriquecer quem o libertar. Passam cem anos. O génio jura fará do seu libertador dono e senhor de todos os tesouros do mundo. Nada se passa durante os cem anos que se seguem.
O génio jura então que realizará três desejos, quaisquer que sejam, formulados por aquele que o libertar. Ainda nada.
Os séculos vão passando. O génio jura então matar quem lhe der a liberdade.
Para Borges, esta história apresentava uma «trouvaille psicológica ao mesmo tempo verosímil e surpreendente».

sexta-feira, março 2

Geniociclopédia VII


Há livros bizarros? há!
Há livros inúteis? há!
Há pedidos estranhos? há!
E, não sei porquê, eles vêm todos ter com a Pó dos Livros. No entanto, algo me diz que este livro será de uma grande utilidade:


Jaime Bulhosa

Ando com uma mania.


Ando com uma mania. É parva, eu sei, mas o que querem, deu-me para isto. A verdade é que quando se trata de literatura ou melhor ficção, não leio, salvo raras excepções, um livro que não tenha sido escrito há pelo menos cem anos ou quase. Tem que ser considerado um clássico. Talvez tenha preconceito ou me esteja a armar aos cucos, pode ser que seja isso, no entanto, sinto-me bem assim. Claro, é evidente que existem belíssimas obras escritas por autores nossos contemporâneos. Mas um livro novo, para mim, é um livro fechado, como se fosse uma pessoa virgem, ingénua, sem experiência de vida suficiente para me transmitir sabedoria ou me atrair. Um livro antigo, pelo contrário, é um livro aberto, isto é, matéria fecunda, pessoa madura, versada e diferenciada. Prefiro assim, noutros tempos foi o contrário. Entendo que os livros novos não passaram ainda pelo filtro do tempo, não foram suficientemente perscrutados de forma a garantir qualidade. Editam-se milhares, se não milhões de livros por ano, em todo o mundo. Porque hei-de perder tempo com porcaria, literatura light ou algo do género, se tenho à minha disposição milhares de clássicos – quantidade mais do que suficiente para preencher a minha vida inteira de leitor –, com o selo de garantia dado por várias gerações. Ah! E se for uma edição com uma capa vintage e a um preço mais em conta, melhor ainda.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, março 1

Geniociclopédia VI


Há livros bizarros? há!
Há livros inusuais? há!
Há pedidos estranhos? há!
E, não sei porquê, eles vêm todos ter com a Pó dos Livros. No entanto, algo me diz que este livro encerra uma grande verdade:


Jaime Bulhosa