quinta-feira, maio 31

Sábado, venham ouvir contar histórias na Pó dos livros


Pornografia



Folheava um livro, quando senti a presença de alguém à minha frente. Levanto a cabeça e atino com um cliente com um ar sisudo, testa enrugada e olhar inquisitivo. Vestia um fato cinzento, uma camisa, imaculadamente branca, apertada até ao último botão do colarinho e um crucifixo prateado destacava-se brilhando na lapela do casaco. Julguei ser um padre, suspeita que ficou confirmada assim que levantou a voz:
- Agora vendemos pornografia? – Disse-me o Sr. padre, apontando para o livro que eu segurava, aberto, entre as mãos.
Não me engasguei e, inabalável, respondo:
- Não sei se o Kamasutra pode ser considerado um livro pornográfico. Eu diria antes literário!
A minha resposta não foi satisfatória e o cliente contra-ataca.
- E essas gravuras que tão obscenamente ostenta, não são pornográficas?
- Não, são arte.
- Ah, arte!... O senhor deve sofrer de alguma perversão sexual para achar que essas ilustrações podem ser consideradas arte?
Mantenho a calma, arquitecto um ardil e contraponho:
- Meu caro senhor. Posso dizer com o orgulho que de todas as perversões sexuais não padeço da mais estranha.
O padre, não resistindo à curiosidade, inquire:
- E qual é a mais estranha, posso saber?
- O celibato!
Ao ouvir a minha resposta, o padre balbuciou qualquer coisa, virou-me as costas e eu senti-me excomungado.  

Jaime Bulhosa

quarta-feira, maio 30

Venha festejar o Dia da Criança na Pó dos Livros


O que é que o Natal e o Dia da Criança têm em comum? São quando as pessoas quiserem e deviam ser todos os dias. É por isso que no dia 2 de Junho, sábado a partir das 10h30, a Pó dos livros e a Zov resolveram dedicar o dia às crianças. A Pó dos livros empresta os livros e a Zov dá as vozes. Livros bons e interessantes com histórias que valem a pena, contadas por pessoas que o fazem por prazer e com entusiasmo.


O incrível rapaz que comia livros vai ser uma rapariga! 
No sábado, dia 2 de Junho venha à Pó dos livros ouvir esta divertida história contada por Marta Gil. 




Leonardo o monstro terrível ou Leonardo o monstro simpático?
No sábado, dia 2 de Junho venha à Pó dos livros ouvir esta divertida história contada por Pedro Fernandes. 

terça-feira, maio 29

Nostalgia



Imaginem que poderiam congelar o tempo. Foi exactamente isso que aconteceu em Paris. Um apartamento foi deixado inabitado durante 70 anos. A Senhora De Florian deixou Paris, antes da segunda guerra mundial, foi viver para o Sul de França e nunca mais voltou. Entretanto, depois da morte da senhora com 91 anos, um grupo de peritos entrou no apartamento onde se deparou com cenário intacto do início do século XX. Era como ter tropeçado num castelo da Bela Adormecida do ano de 1900. Por de trás da porta, de onde vinha um cheiro a poeira velha, encontraram diversos objectos do século XIX , como por exemplo, um quadro do artista italiano Giovanni Boldini e muitos outros objectos, como livros, revista, jornais, com histórias de outros tempos, bem como mobiliário do início de século XX.

sexta-feira, maio 25

Exageros bibliófilos



Todos sabemos que o povo espanhol é dado a exageros e cometer muitas vezes o pecado do orgulho (a superbia).
Certo dia, há muito, muito tempo, um conservador de uma biblioteca de Madrid mostrava a um visitante português um dos livros preciosos, confiados à sua guarda:
- Aqui tem um exemplar de uma das 13 Cartas de São Paulo, magnificamente impressa. Este exemplar pertenceu ao próprio autor.
O visitante português, como qualquer português, é dado a admirar com espanto tudo o que vem do estrangeiro, mas quando se trata de espanhóis…
- Temos coisa muito mais preciosa na biblioteca de Coimbra. Temos lá o lápis e a lista onde Noé riscava os nomes dos animais, à medida que iam saindo da Arca.

Contos completos




Duas obras, dois livros de Fernando Pessoa, um editado pela Assírio & Alvim e outro pela Antígona. Um tem por título O Mendigo e Outros Contos e diz assim:

«Estão reunidos neste volume alguns contos de Fernando Pessoa, uma parte apenas da vasta prosa ficcional que o autor nos deixou. Contos filosóficos, ou intelectuais como Pessoa chegou a chamar-lhes, contos paradoxais quando as situações que apresentam contrariam o senso comum, contos em jeito de fábula, com uma moralidade final e ainda outros. Todos eles parte integrante do universo pessoano. Há diálogos filosóficos com enigmáticos mestres que assumem diferentes rostos de conto para conto — o mendigo, o eremita, o bêbado - transmitindo as suas máximas a quem os encontra no caminho. Um caminho iniciático até uma diferente dimensão, percorrido pelo peregrino do conto com o mesmo nome, que segue a estrada até ao fim impelido pelas palavras de um homem de preto. Outro tipo de diálogo é aquele que se desenvolve entre o marinheiro e quem o encontra, de madrugada, no Cais das Colunas, local de onde se avista uma outra margem. Estas narrativas, até aqui inéditas ou pouco conhecidas, irão surpreender os leitores de Fernando Pessoa.»

Já o outro livro, que  dá pelo nome de Contos Completos, diz assim:

«Fernando Pessoa, além da sua produção heteronímica, dispersou em vida, por jornais e revistas, ficções narrativas marcadas pelo humor, pela inteligência, pelo absurdo e pela ironia, agora reunidas em volume, a par de três inéditos. Contos Completos inclui «Con­tos Completos & Crónicas Decorativas» – entre os quais o celebrado conto O Banqueiro Anarquista e a curiosa ficção O Automóvel ia Desaparecendo, escrita como texto publicitário para uma marca de tintas de automóvel – e Fábulas para as Nações Jovens – um conjunto de seis contos transcritos a partir dos originais que se encontram no espólio do autor, na Biblioteca Nacional –, O Marinheiro: Drama Estático em Um Quadro e Contos Selectos de O. Henry traduzidos do original inglês por Fernando Pessoa, publicados na revista Athena, entre Dezembro de 1924 e Junho de 1925.»

Dois livros, indubitavelmente, para ler. Mas qual deles escolher? Teremos alguma dificuldade porque quando abrimos o índice dos livros verificamos que os contos que estão inseridos num não estão no outro. Em que ficamos? Será que os Contos Completos, da editora Antígona, são completos apenas por terem fim? 

quinta-feira, maio 24

O amor é lindo!



Num dia de pouco movimento, na livraria, um homem resolve partilhar connosco, em voz alta, o que pensava da sua “mulher”. Diz-lhe que é uma cretina, uma enorme...
- És tão estúpida que não consegues distinguir um cavalo de um burro!
A mulher, muito calma, pergunta-lhe:
- Ouve lá! eu já alguma vez te chamei cavalo!?...

O Sistema Periódico


Na véspera de se retirar do universo da química para se dedicar exclusivamente à escrita, Primo Levi oferece-nos, através de 21 capítulos, cada um com o nome de um elemento da tabela periódica, um relato da sua vida enquanto cientista e através do qual responde a inúmeras e complexas questões sobre o mundo e sobre si próprio.
O Sistema Periódico é, pois, um conjunto de vivências de um químico judeu do Piemonte, combatente antifascista, deportado e escritor, vistas através do caleidoscópio da química. As histórias cobrem a vida do autor, do nascimento à redação deste livro, passando por momentos fulcrais como a infância, a descoberta da vocação e a sua formação como químico, os amores e as amizades, o crescimento do movimento fascista italiano e o aparecimento das leis raciais, a vida na clandestinidade, a prisão e o encarceramento em Auschwitz, e o regresso aos laboratórios do campo de concentração já no pós-guerra.
Um testemunho autobiográfico único por um dos principais romancistas do século XX.



edição: Teorema
título: O Sistema Periódico
autor: Primo Levi
tradução: Maria do Rosário Pedreira
formato: 15.5x23.5cm - brochado
isbn: 9789726959908
pvp: 15.90€

terça-feira, maio 22

Ler não tem que ser um acto solitário




A senhora X, octogenária, vem desde há quatro anos, todas as tardes, à livraria Pó dos Livros. Entra silenciosamente e, como é costume, cumprimenta-nos com um suave:
 - Boa tarde.
Depois, dirige-se devagarinho para as estantes junto ao café e retira como é habitual dois ou três títulos e tão silenciosamente como entra, senta-se no café, sempre no mesmo lugar, a ler. Quando chega a hora de fechar, deixa os livros em cima da mesa e retira-se com outro ameno:
 - Boa noite.
Em quatro anos, boa tarde e boa noite, foram as únicas palavras que lhe ouvi proferir. Não foi pelo facto da senhora utilizar a livraria como biblioteca que decidi perguntar-lhe a razão porque o fazia há tanto tempo, apenas por curiosidade. Respondeu-me:
- Venho para cá porque vocês me fazem companhia. Em casa estaria, mais uma vez, sozinha.

Dia 10 de Novembro de 2011

Nota: Já há uns dias que tinha dado pela ausência. A partir de agora e todos os dias, no fim da tarde, no café, há uma cadeira que antes ocupada estará vazia. Tive a triste notícia de que a senhora faleceu. Vai fazer-me falta a silenciosa companhia.


Jaime Bulhosa

quarta-feira, maio 16

A Bíblia ou o Alcorão, qual dos dois livros é o melhor?



Um cliente poisa sobre o balcão a Bíblia e o Alcorão e pergunta ao livreiro:
- Qual dos dois livros é o melhor? Isto é, qual da três leis, a judaica, a sarracena ou a cristã, considera a verdadeira?
A pergunta procurava apanhar-me na rede das próprias palavras e pensei que não podia louvar nenhuma das três leis mais do que as outras sem com isso permitir ao cliente atingir os seus fins. Por isso, a necessidade aguça o engenho e respondi-lhe assim:
- Meu senhor, é uma pergunta importante essa que me fazeis e, para vos dizer o que penso a tal respeito, preciso de vos contar uma historieta.

Se a memória não me atraiçoa, recordo-me de muitas vezes ter ouvido falar de um homem rico e poderoso que possuía um tesouro no qual, entre outras jóias de grande preço, havia um belíssimo e valioso anel. Querendo prestar homenagem ao seu valor e à sua beleza e deixá-lo para todo o sempre aos seus descendentes, determinou que aquele dos seus filhos nas mãos do qual o anel fosse encontrado seria o seu herdeiro e deveria ser honrado e respeitado pelos outros como primogénito. O filho a quem foi deixado o anel, fez com os seus descendentes o que fizera o seu predecessor. Em suma, o anel andou de mão em mão ao longo de uma série de herdeiros. Acabou por cair nas mãos de um homem que possuía três filhos belos e virtuosos e muito obedientes a seu pai, razão por que este a todos amava igualmente. Mas os jovens, que conheciam a lei do anel, levados pela ambição de ocuparem o primeiro lugar na família, pediam todos eles ao pai, já velho, que lhes deixasse o anel à hora da morte. O bom homem, porém tinha por todos eles o mesmo afecto e por isso não sabia designar um herdeiro. Pensou então satisfazer a todos, prometendo-lhes igualmente o anel. Secretamente, encarregou um hábil artista de fazer outros dois, que ficaram tão parecidos com o primeiro que o próprio autor mal distinguia o autêntico. E, quando a morte se aproximou, deu-os, às escondidas, a cada um dos filhos.
Estes, após a morte do pai reclamaram a herança e a honra da progenitura. Como negassem uns aos outros todas as qualidades, resolveram provar o fundamento dos seus direitos mostrando o anel. E viram os anéis tão iguais uns aos outros que não se podia descobrir qual era o verdadeiro e ficou pendente (e ainda está) a questão de saber quem era o autêntico herdeiro do pai.
O mesmo vos direi, meu senhor, das três leis dadas aos três povos por Deus Pai. Cada um deles, certo da sua herança, pensa deter a verdadeira lei e os seus mandamentos. Mas, tal como com os anéis, a questão continua pendente.*

* Saladino e a Lenda dos Três Anéis, in Decameron, Boccaccio.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, maio 10

Desabafo



«Morto entre os vivos e vivo entre os mortos». É assim que um livreiro se sente durante a Feira do Livro. Qual foi o mal que os livreiros fizeram para serem castigados por uma concorrência tão desleal? Não criamos valor? Não damos emprego? Não pagamos impostos? Não divulgamos o livro? Porque que razão não se cumpre a lei da concorrência e do preço fixo na Feira do livro?
É fácil constatar que, nesta Feira do Livro, não há lógica, moral ou camaradagem. Porque é uma Feira onde não há leis, onde se praticam maiores descontos que na campanha do Pingo Doce e ninguém diz nada ou fica indignado com o dumping. É o valor que damos à cultura. Estamos a falar de uma Feira que não dignifica o livro nem os autores. Uma Feira do salve-se quem puder. Feira que não é mais do que o prenúncio de uma morte anunciada. 

Jaime Bulhosa

terça-feira, maio 8

As Mil e Uma Noites



As Mil e Uma Noites é uma colecção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. No mundo ocidental, a obra passou a ser amplamente conhecida a partir de uma tradução do francês realizada em 1704 pelo orientalista Antoine Galland, transformando-se num clássico da literatura mundial. 
Costumo ler, entre outras leituras, uma história ou duas de As Mil e Uma Noites para me entreter, quando não tenho nada para fazer, ou leio-as ao meu filho mais novo para lhe dar sono. Esta é uma das principais obras da literatura mundial e uma das que mais tem influenciado os grandes escritores. Por exemplo, outro dia estava a ler uma das histórias da Xerazade quando de repente digo para mim: «ah! foi então aqui, não pode ter sido noutro lado, que o malandro do Umberto Eco foi buscar a ideia, do livro envenenado, para O Nome da Rosa». Também me apercebi que foi lá que Voltaire se inspirou para escrever A Princesa da BabilóniaZadig ou o Destino. Enfim, um sem número de autores foram, de uma maneira ou de outra, beber nesta obra incontornável e que eu adoro.
Deixo-vos com uma história de sabedoria que se encontra dentro de outra história e que por sua vez pertence à grande história de As Mil e Uma Noites:
  
«Um Sábio indiano tinha a fama de preferir o silêncio a toda a espécie de ensinança. Os habitantes de uma pequena cidade convidaram-no, muito decididos a fazê-lo falar. Ele aceitou comparecer.
No primeiro dia, perante uma centena de ouvintes, perguntou-lhes:
- Sabeis de que vou falar-vos?
- Não – responderam.
- Neste caso, nada vos direi. Sois demasiado ignorantes. Não vejo com que poderia entreter-vos. E retirou-se.
O auditório, desapontado, voltou no segundo dia.  E ele pergunta de novo:
- Sabeis de que vou falar-vos?
- Sim – responderam eles.
- Nesse caso, nada tenho a ensinar-vos. Boa noite. E retirou-se.
Sem se darem por vencidos, os interessados combinaram-se e voltaram, no terceiro dia, bem decididos a apanhar o amigo do silêncio com um ardil.
O homem perguntou-lhes:
- Sabeis de que vou falar-vos?
- Uns sabem e outros não – responderam-lhes.
- Nesse caso, que os que sabem o digam aos que não sabem. E retirou-se para não mais voltar».

Jaime Bulhosa

sexta-feira, maio 4

Seminário Mensal de Investigações em Curso - Portugal Contemporâneo


SEMINÁRIO MENSAL DE INVESTIGAÇÕES EM CURSO
PORTUGAL CONTEMPORÂNEO:
ESTUDOS HISTÓRICOS COMENTADOS





8 de Maio de 2012
18h00
Relações de poder e identidade nacional
na história do desporto em Portugal
Por José Neves
(IHC – Universidade Nova de Lisboa),
comentário de Miguel Vale de Almeida
(ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa)

No ano lectivo 2011/2012, o IHC promove um novo seminário mensal destinado à apresentação e discussão de investigações ou estudos em curso, dedicados à História de Portugal e da Europa nos séculos XIX e XX.
Com esta iniciativa pretende-se contribuir para a criação de um espaço de debate entre investigadores e unidades de investigação de várias Universidades, e para o fomento da colaboração entre os mesmos. Trata-se de estimular a partilha de metodologias e de resultados de pesquisa. O cruzamento entre investigadores de diversas ciências sociais, de forma a favorecer o diálogo entre a História e outras Ciências Sociais, é outro dos objectivos deste seminário.
Local: Livraria Pó dos Livros – Av. Marquês de Tomar, n.º 89 A, Lisboa.