segunda-feira, junho 4

Caçador-de-livros



Tornei-me num caçador-de-livros. A expressão não é minha, é de uma cliente, que de tão assídua que é ficou amiga tu cá, tu lá. O nome não me foi atribuído, mas sim ao meu colega, Carlos Loureiro que se tornou caçador antes de mim. Seja como for, a verdade é que também sou um caçador-de-livros perdidos, usados, de livros mortos que já quase ninguém quer ler.
A crise económica obriga-nos a improvisar e não temos outro remédio se não andarmos a vagabundear (é o termo certo) por velhos alfarrabistas e feiras de livros usados, em busca do livro que, apesar de estar esgotado em todo o lado, o cliente exige ter. No entanto, aquilo que no princípio parecia ser uma obrigação profissional transformou-se num passatempo, melhor, num prazer imenso. Ando por toda a cidade de Lisboa, à caça de livros, por debaixo dos Jacarandás, sob os raios de sol que reflectem, nas fachadas dos prédios cobertos de paneis de azulejos, a luz tão especial da nossa cidade. 
Trago comigo uma lista de livros encomendados. Procuro uma edição das Mil e Uma Noites, a mais completa possível e barata. Um Cristo Recrucificado, de Nikos Kanzantzaki que é um livro que vou ter que arranjar a dobrar, porque não posso deixar de o ler. E O Valente Soldado Chvéïk, de Jaroslav Hasek, que se for exemplar único, santa paciência, mas o cliente vai ter que esperar, ando há que tempos para o ler.
Era para comprar três livros, comprei vinte e três e todos me apetecem ler. Depois chego a casa, aspiro-os, passo-lhes um pano húmido para tirar a sujidade e o pó dos anos. Abro todos os livros e leio, de todos eles, os prefácios ou as primeiras páginas e fico ainda com mais vontade de os ler. Vejo quem são os tradutores, normalmente nomes que outrora desconhecidos são hoje reconhecidos, Mário Henrique Leiria, José Saramgo, Luis Sttau Monteiro, etc., etc. Sinto o cheiro dos livros antigos, olho para eles e para as capas vintage,  lindas, vezes sem conta, e digo: «vou ficar com eles para mim!» Depois penso: «não, não pode ser, eu vivo disto.» A custo trago-os para a lavraria para os vender sempre na esperança que na próxima volta os torne a encontrar.
Ontem comprei Agostinho, de Alberto Moravia, só por ser um Moravia, o título não me dizia muito, abri-o, li a primeira frase e espanto, como num filme, sem ser preciso mais, recordo-me de o ter lido há muito, muito tempo e volto, como a personagem de Moravia, Agostinho, à minha adolescência. É a magia dos livros.

Jaime Bulhosa