quinta-feira, agosto 30

Escritores de telenovelas



- Queria um romance que fosse mesmo um romance. Nada de Margaridas Rebelo Pinto, nem coisas do género.
Após ter mostrado uma série de romances, mesmo romances, dos bons e dos menos bons, a cliente não gosta de nenhum, nem da Margarida, nem de outras Margaridas com um nome diferente. De repente, sem querer, olho para estante dos romances lusófonos, vejo a salvação e lembro-me de sugerir:
- E que tal este: Gabriela Cravo e Canela, sempre dá para acompanhar a novela que vai passar na televisão.
Resposta inesperada:
- Oh! Que engraçado… terem feito um livro da novela.

Jaime Bulhosa

segunda-feira, agosto 13

Venho para comprar tudo



Encontro-me a ler junto ao balcão, é Agosto, a horas em que a livraria já não espera nem acolhe outro leitor a não ser o seu próprio livreiro. Um movimento inesperado na porta da loja distrai-me da leitura. Entra um senhor de aspecto distinto, muito bem vestido mas de forma antiquada. Sugestionado ou não pelo livro que lia, pareceu-me de repente uma personagem saída de um livro de Edgar Allan Poe ou de Bram Stoker. O homem formula uma pergunta:

- Vende-se bem?

Dadas as circunstâncias, não lhe respondo imediatamente, mas ele insiste:

- Você estaria disposto, se fosse o caso, a vender tudo?

Desconfio. No entanto, dou brilho aos sapatos, arreganho a dentadura, penteio-me.

- Venho para comprar tudo.

Agora sim, presto atenção. Engraxo-lhe os sapatos, etc. Ele continua:

- Tudo depende, evidentemente, do preço. Mas faço-lhe uma oferta generosa.

- Diga, então.

- Dois milhões.

Mentalmente dou pulos, em silêncio dou gritos de alegria. Comprometi-me a vender tudo. Tiro os livros, entrego-lhos, embrulho também os da montra, a caixa, os lápis, as canetas, o cabide. O senhor insiste.

- Eu disse tudo.

- Tudo? O que é tudo?

- Tudo, tal como eu disse.

- As paredes?

- Sim, creio que nos entendemos bem, você fixou o preço e eu não desisti. Eu disse tudo. As paredes, o tecto, o rés-do-chão, o 1.º piso, as outras paredes, os outros tectos, enfim: tudo.

Encolhi os ombros.

- Bom, digo-lhe, sendo assim vou andando. Disponha. É tudo seu.

- Mas onde pensa que vai? Você também faz parte do «tudo», o dinheiro que eu lhe dei, o chão que pisa, o ar que respira, o mundo que o rodeia. Eu comprei TUDO.

Relato de um sonho de livreiro transformado em pesadelo

quarta-feira, agosto 8

Um dia cheio de trabalho



Uma livraria é um local procurado por muita gente que nem sempre tem uma motivação literária.
Ontem, logo pela manhã, uma senhora, dos seus cinquenta e muitos anos, entra na livraria, olha em redor, admira as estantes cheias desses objectos mágicos, intangíveis, que são os livros. Parece gostar do que vê e pergunta:
- Por acaso, vocês aqui na livraria, não conhecem ninguém que alugue quartos?
Não fazíamos a mais pequena ideia, por isso, sugerimos que a senhora perguntasse na papelaria que fica ao nosso lado e que está neste bairro há muito mais tempo. A resposta foi, no mínimo, desconcertante:
- Ah, não! Na papelaria não!... Onde todo a gente faz o euro milhões. Eu sou professora e não quero conviver com gente esquisita.
Está certo. Nós também nos sentimos ofendidos quando nos confundem com uma simples papelaria.

Poucos minutos depois, toca o telefone:
- Está sim, bom dia! Livraria Pó dos Livros, diga por favor.
Do outro lado da linha ouve-se uma voz de homem com sotaque do Porto:
- Bom dia, minha menina. Queria saber se tem um livro muito, muito antigo e que se chama A Fábula de Cristo, um livro, veja lá que disparate, que defende a teoria de que Cristo não existiu.
A livreira, indiferente ao comentário, verifica a existência do livro e responde que sim.
- Isso é bom! Quer dizer… Mas tenho um problema, como sou do Porto como fazemos?
A livreira sem se atrapalhar sugere o envio pelo correio.
- Hum… hum, não sei… Pode ser, mas desde que ninguém fique a saber.

Um pouco mais para a hora do almoço:
- Tem A Bíblia Ilustrada, mas com fotografias de Jesus Cristo e dos apóstolos?

Já pela tarde:
- O que tem de João Aguiar?
- Temos vários, incluindo o último.
- Mas então, o homem não escreveu mais nada desde esse livro? Anda um pouco preguiçoso… Não acha?
- O escritor João Aguiar faleceu em 2010.

Jaime Bulhosa

terça-feira, agosto 7

Atrás do balcão



Um dia uma cliente perdeu o seu porta-moedas. Procurou no balcão nas estantes onde tinha estado a ver os livros, enfim por todo o lado, mas em vão. Avistou então um dos livreiros que passava desviando o olhar, e imediatamente suspeitou que ele lhe tinha roubado o porta-moedas. Com efeito, o livreiro tinha em tudo o comportamento de um ladrão de porta-moedas. A cara, o ar, as atitudes, os gestos dele, o estar atrás do balcão, as palavras que prenunciava, tudo nele revelava, para lá de quaisquer dúvidas, um ladrão de porta-moedas.
Estava a cliente prestes a denunciá-lo, a acusá-lo publicamente e a levá-lo à presença do juiz quando recuperou o seu porta-moedas, que tinha caído no chão ali perto.

Quando voltou a ver o livreiro, este não apresentava o menor indício que levasse a ver nele um ladrão de porta-moedas.

quarta-feira, agosto 1

THE GIRL WHO HATED BOOKS

Quando a realidade ultrapassa a ficção




- Quero um livro que me explique porque é que o meu marido se apaixonou pela sua secretária e porque passa tanto tempo no escritório.
- Com certeza, nós temos tudo. Mas já agora… a qual das secretárias se refere?