quinta-feira, fevereiro 28

O papa no paraíso



Antes do papa João Paulo II, a cristandade teve um soberano pontífice que tomou o nome de João Paulo I. Parecia ser um homem bom e conciliatório, mas ficou apenas um mês no trono de S. Pedro. O senhor chamou-o e levado à presença de Cristo, que o recebeu com benevolência e lhe disse:
- Sim, eu sei, o teu pontificado foi um pouco breve. Mas tenho as minhas razões. Eu explico-te.
- Seja feita a tua vontade – respondeu João Paulo I com a voz maravilhada. – Como poderei eu, humilde criatura, discutir as tuas radiosas decisões? Agradou-te trazer-me para junto de ti e está escrito: «Não saberás o dia, nem a hora.» Agradeço-te, sinto-me tocado pela tua graça, eu…
O papa interrompeu-se porque acabava de avistar ao longe, nas nuvens, qualquer coisa que o perturbou. Cristo notou essa perturbação e perguntou-lhe o motivo.
- Mas – diz o papa – não é o arcebispo de Cantuária que acaba de avistar além, entre duas nuvens?
- É bem possível – respondeu Cristo.
- O arcebispo de Cantuária está aqui?
- E porque não?
E para dissipar a confusão ainda humana do pontífice, Cristo disse-lhe, sorrindo:
- Não penses, João Paulo, que todos arcebispos de Cantuária estão aqui, pois há entre eles sinistros canalhas. Mas tens que compreender uma coisa: aqui, no meu paraíso, são admitidas todas as criaturas humanas que se mostraram justas e boas, como tu.
- Sem levar em conta a sua religião? – Pergunta o papa algo céptico.
- As religiões – responde Cristo com doçura e inteligência – são as divisões da terra. Pelas loucas quarelas que engendram, pela tensão extraordinária que suscitam nos espíritos, talvez sejam úteis para a manutenção, para a sobrevivência dessa terra minúscula a que votei tanto apreço. Aí está, como vês, uma velha e ardente questão. Qual é preferível, o fanatismo ou o silêncio? A obscuridade do coração ou a luz apaixonada? Discutimos isso muitas vezes, Buda e eu, e estamos em desacordo sobre diversos pontos de grande importância.
- Buda está aqui? – perguntou o papa, que mostrava cada vez maior espanto no rosto.
- Mas como poderia não estar? Foi dos melhores que viveram na terra. A sua inteligência é profunda, quase ilimitada. Aconselho-te a ires vê-lo de vez em quando. A sua presença poderá ajudar-te a suportar a eternidade.
- E… Lutero? – perguntou João Paulo I com uma voz que tremia ligeiramente. – está aqui?
- Hesitei um pouco – respondeu-lhe Cristo – pois tem um carácter execrável, mas afinal, após uma temporada bastante breve no purgatório, admiti-o. No fundo, é um homem de justiça e boa vontade, e isso conta acima de tudo. Portanto, não creio que encontres junto de mim um grande número de papas. A eternidade reserva surpresas. E mais não te digo.
- Então – diz o papa – Confúcio está aqui?
- Naturalmente.
E Zoroastro?
- Claro.
E Ramakrishna?
- Ora, então!
Então o papa baixou a voz e pronunciou a palavra que queimava os seus lábios:
- E Maomé? Maomé está aqui?
- Mas naturalmente, Maomé está aqui! Onde havia de estar?
Nisto Cristo voltou-se e disse em voz forte, por cima do ombro:
- Maomé! Dois Cafés!

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