segunda-feira, março 11

No final da carta



No livro antigo ou usado, como quiserem chamar-lhe, não são só os textos que fascinam, nem, somente, os autores. O aroma doce, das folhas oxidadas pelo tempo, inebria. As traduções de homens e mulheres que há época não eram unanimemente reconhecidos são hoje nomes como José Rodrigues Miguéis, José Saramago, Vitorino Nemésio, Mário Henrique Leiria, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Ondina Braga e outros tantos que garantem a qualidade. As capas vintage de artistas como Vitor Palla, Paulo-Guilherme, Sebastião Rodrigues, João da Câmara Leme e A. Garcia transformam o objecto numa autêntica obra de arte e maravilham (se virem algum livro com um destes  nomes comprem, eles valem só pela capa). Mas o livro antigo traz mais consigo, dedicatórias de página inteira a personalidades de diversas áreas da cultura valorizam-no e os objectos encontrados dentro do miolo, como, por exemplo, um bilhete de teatro ou de uma viagem de comboio de Lisboa-Coimbra levam-nos para longe. Um postal, uma carta de amor, contam histórias, retratam costumes e modos de viver, muitas vezes, de todos os tempos.
Foi precisamente isso que aconteceu ao abrir um destes livros e deparar-me com uma carta datada de 1949, escrita com a caligrafia redonda e legível de uma mulher. A carta estava escrita num tom amargurado e demasiado formal, talvez fosse assim nos anos quarenta, o papel estava com marcas de ter sido amarrotado com raiva. A missiva é longa e não a posso aqui transcrever na totalidade, até para manter a privacidade. Porém, deixo-vos o post-sicriptum que é delicioso e explica de forma clara o tipo de relacionamento entre a autora da carta e o seu receptor.

(no final da carta)

P.S. Não pense que estou zangada, não o trato por tu, como é costume, por ter receio que esta missiva vá parar as mãos de sua mulher.    

Jaime Bulhosa

3 comentários:

fallorca disse...

Carta escondida com PS (salvo seja...) de fora, ahahah

Anônimo disse...

Pormenor delicioso. Provavelmente um lapso freudiano da autora da missiva - mas a deixar o "amigo" em maus lençóis...

DL

Claudia disse...

Adoooro o seu blog. Algumas vezes transcrevo para meu blog postagens suas, com o devido registro de seus direitos autorais e criativos!