sexta-feira, abril 12

Último suspiro




Estava em frente da porta da livraria a fumar um cigarro, a fazer um intervalo entre o vazio de clientes e a azafama de pessoas que passam e pedem esmola. Como não dá para dar moedas a todos, porque são muitos, opto, em vez disso, por dar uns cigarros. Enquanto observava o dia bonito de primavera, com as árvores timidamente a mostrarem as suas novas folhas, pensava no contraste que o dia fazia com o semblante triste da gente que passava. Nisto surge no passeio um rosto vagamente conhecido, mas mais velho e gasto desde a última vez que o vira. Cumprimentei-o e perguntei, só por perguntar, se estava tudo bem. Mas em vez de ter a resposta de circunstância: «Sim, está tudo bem» obtive um: «Não, estou desempregado». Sem saber bem o que dizer, não por ter ficado surpreendido, porque o que nos acontece mais hoje em dia é encontrar alguém que está desempregado, saiu-me da boca, e sem reflectir no que dizia, um: «e agora, como vais viver?»
Digo-vos, não me vou esquecer da resposta que obtive, foi tirada de dentro das entranhas, real, efectiva, amarga, mas ao mesmo tempo, verdadeiramente, poética: «e agora, perguntas tu... quando já não tiver o que comer, engolirei o meu último suspiro».

Jaime Bulhosa

7 comentários:

José Pinto Lopes disse...

Muito real e dramática esta pequena narrativa.Comovente mesmo.
Grato pela partilha.

Daniela Vieira disse...

A pessoa deveria virar escritora!

Anônimo disse...

@Daniela Vieira
alem de ficar sem rendimentos ainda tinha de gastar em papel e canetas?

Joaquim Moedas Duarte disse...

Que fazer?
Em 1640 o inimigo tinha rosto e foi pela janela fora.
Hoje... qual o rosto?
Por cada um que pudéssemos defenestrar apareceriam cem para o substituir.

Sim, que fazer?

SEVE disse...

Eles não têm rosto, são apenas siglas...são inumanos!

Daniela Vieira disse...

Ah Anônimo, poderia pegar rascunhos.
Gosto tanto rs
E canetas sempre tem uma boa alma para "doar"

Anônimo disse...

Estive quase 2 anos desempregado. Foi, sem dúvida, o pior período da minha vida. É saber-se que o dia de amanhã irá ser igual ao de ontem. E o de hoje ainda falta tanto para acabar...