quarta-feira, abril 3

Um Presidente benevolente





Um Grande Presidente de um pequeno país andava de cá para lá e da lá para cá, silencioso, taciturno, no seu palácio, tanto que não fazia mais do que gastar o erário público e o pavimento, à semelhança de D. Afonso VI. Até que um dia se lembrou de mandar chamar o seu Primeiro-Ministro para lhe dizer:
- O senhor não deve, não pode continuar a ignorar os clamores de reprovação que os meus súbditos... perdão, que os meus concidadãos soltam contra si. Consideram-no um grande e refinado patife.
- Creia, Excelência, que se trata de uma infame calúnia - respondeu o Primeiro-Ministro.
- Agrada-me muito ouvir essa afirmação - declarou o Grande Presidente.
Dito isto, levantou-se, para indicar que a audiência havia terminado. Mas vendo que o seu interlocutor se mantinha imóvel, como era seu costume, prosseguiu:
- Tem ainda alguma coisa a acrescentar?
- Sim, Excelência. Quero pedir a minha demissão; o clamor público é deveras falso, quando diz que sou um grande patife. Todavia, nada é grande ou pequeno senão através das comparações e conheço outros com quem eu e sua Excelência nos poderíamos comparar. Porém, deixemos isso. Mas o protesto não é injusto: eu na verdade e feitas as devidas comparações não passo de grande imbecil.
Aqui o Presidente consentiu em sorrir, para declarar, cheio de benevolência:
- Meu bom amigo, vá retomar as suas funções, nesse ponto, pareço-me muito consigo.


(Fábulas de Esopo emendadas)

Nenhum comentário: