sábado, dezembro 14

Gigantes e anões


Para quem gosta de livros, viver no meio deles é um privilégio, seja como escritor, editor, livreiro, leitor, etc. Não me queixo da minha sorte, faço exactamente o que gosto. Todavia, já desfrutei mais com o que faço, ou melhor, já gostei mais do negócio dos livros. Num passado recente a relação que existia entre os vários agentes do livro era mais equilibrada, o mercado era mais distribuído, homogéneo, não importava tanto ser grande ou pequeno, mais forte ou mais fraco. Eu acreditava que no mercado ninguém se considerava acima da lei, e que ninguém fora dele podia impor leis que o mercado fosse forçado a reconhecer, pois seja qual for a constituição de um mercado, se houver uma só empresa que não esteja submetida à lei, todas as outras estarão necessariamente à mercê dessa empresa.
O nosso mercado do livro não é hoje muito diferente ao de outros países, o que aconteceu lá fora, aconteceu cá dentro mas para pior, isto é, transformou-se praticamente num oligopólio, tanto a nível do retalho como a nível editorial, onde a maior parte das médias e familiares editoras passaram a ser meras chancelas editoriais. Existem actualmente em Portugal duas grandes empresas editoriais, a Porto Editora e a Leya. No retalho a realidade não é muito diferente, existem os hipermercados – de onde se destaca a Sonae –, a enorme cadeia de livrarias Bertrand – pertencente ao grupo da Porto Editora – e um gigante chamado FNAC. Tudo o resto são duas ou três médias empresas, outras tantas pequenas e um punhado de micro empresas que vivem sob as regras e o jugo das grandes. E o resultado é este: quando um gigante e um anão caminham na mesma estrada, em cada passada que dão o gigante ganha nova vantagem.

É necessário entender que quem marca o preço dos livros são os editores que muitas vezes os aumentam artificialmente para alimentar campanhas de descontos que as grandes cadeias exigem aos editores. Estes não têm outra hipótese se não ceder porque, precisamente, ficaram sem os livreiros independentes para venderem os seus livros mais baratos, ou seja, ficaram dependentes de três clientes. Por outro lado, os livreiros independentes que ainda existem não têm poder de negociação para pedir aos editoras as mesmas margens que dão aos grandes grupos. Para terem uma ideia a margem de um pequeno livreiro é de 30% em média, enquanto a margem de uma Bertrand, Fnac ou Hiper ronda entre os 50 e 60% e por vezes mais. Agora digam-me se isto é justo e equatitativo? Mais, os grandes grupos nem sequer respeitam a lei do preço fixo que foi feita para evitar este desequilíbrio. E agora pergunta o leitor e com pertinência: se os editores tem tanta margem para dar, por que razão são os livros tão caros? Eu respondo: para além das pequenas tiragens (que faz aumentar o preço por exemplar) e de um pequeno país com fracos índices de leitura, o consumidor não resiste a um grande cartaz a dizer: "descontos espectaculares!" E no fim quem paga é o consumidor, isto é, o leitor ingénuo e crente que lhes estão a dar alguma coisa de graça.

Editam-se actualmente, no mundo, milhões de títulos por ano, e em Portugal milhares, tantos que eu teria que construir uma nova livraria a cada ano, só para conseguir arrumar todos livros saídos apenas em Portugal. Dou-vos uma imagem mais clara: imaginem todos os títulos editados no mundo, deitados uns a seguir aos outros sobre a linha do equador, eles são tantos que dariam para dar centenas de voltas ao planeta. É por isso, que fico sempre assombrado de cada vez que entra um cliente à procura de um livro, na imensidade de livros que existem, e fica muito escandalizado, irritado, quando não o encontra, imediatamente, o que pretende. Porém, é exactamente essa uma das funções de um livreiro, tentar adivinhar os livros que os seus clientes procuram, nem sempre é fácil, no entanto, acho que o fazemos razoavelmente bem, tendo em conta a dimensão em que nos movemos.
Posto isto, será que o aumento exponencial de livros e o tipo de títulos que hoje se editam é benéfico para a diversidade cultural, ideias novas, qualidade e liberdade de escolha do público leitor? Para vos responder a esta questão deixo-vos com uma passagem do livro «Negócios dos Livros», de André Sciffrin, Letra Livre:

As mudanças no meio editorial […] mostram a aplicação da teoria do mercado à disseminação da cultura. Os proprietários das editoras têm vindo a «racionalizar as suas actividades», seguindo o padrão das políticas pró-empresariais de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher. O mercado, segundo se defende, é como que uma democracia ideal. Não cabe à elites a imposição dos seus valores sobre os leitores, dizem as editoras, o público é que deve escolher aquilo que deseja – e se o que deseja é cada vez  mais massificado e de alcance limitado, então que assim seja. O aumento dos lucros é a prova de que o mercado está a funcionar como devia.
Tradicionalmente, as ideias estavam isentas das habituais expectativas de lucro. Admitia-se, com frequência, que os livros que apresentassem novas abordagens e teorias diferentes fariam naturalmente perder dinheiro, logo à partida. A expressão «mercado livre de ideias» não se refere ao valor de mercado de cada ideia. Pelo contrário, significa que ideias de toda a espécie deveriam ter uma oportunidade de sair a público, de serem explicitadas e argumentadas até ao fim, e não de forma truncada.
Durante boa parte do século XX, o mercado de edição e venda de livros foi, no seu todo, visto como uma operação no limiar da rentabilidade. Os lucros viriam assim que os livros chegassem a um público mais amplo através da venda de «paperbacks» e dos clubes do livro. E se isto é exacto para a não-ficção, tanto mais para a literatura. Era esperado que um romance de estreia perdesse dinheiro (e de muitos autores já se disse terem escrito muitos romances de estreia). Todavia, sempre houve editoras que consideravam que a edição de novos romancistas devia constituir uma parte importante do conjunto da sua produção.
Novas ideias e novos autores demoram a ser aceites. Podem passar vários anos até que um escritor encontre um número de leitores que seja significativo a ponto de justificar os custos da publicação do seu livro. Mesmo a longo prazo, o mercado não pode ser considerado um juiz adequado para o valor de uma ideia, como provam, de forma óbvia, as centenas ou até milhares de livros que nunca fizeram dinheiro. Assim, toda esta nova abordagem – a decisão de publicar apenas os livros que podem trazer lucro imediato – elimina automaticamente dos catálogos um vasto número de obras de relevo.


Jaime Bulhosa

2 comentários:

Anónimo disse...

Permita-me uma pequena nota de humor sobre este tema que é sério. Acabo de ler um artigo da BBC news que, não sendo recente, me fez lembrar esta série de textos da Pó dos Livros pois no final do artigo é chamado à atenção que de facto o livro foi publicado. Afinal nos tempos que correm qualquer macaco pode publicar um livro.
http://news.bbc.co.uk/1/hi/3013959.stm
Patrícia.

Rogério de Freitas disse...

Não me preocupa que qualquer macaco possa escrever um livro. Grave é publicá-lo para que "leitores-alvo" os possam comprar numa grande superfície a €3/Kg. e enterrá-los contra a parede de casa numa estante de fórmica, como se fossem tijolos e assim aniquilar os pequenos livreiros de bairro capazes de ajudar e encaminhar velhos e novos leitores para os assuntos do seu interesse sem que estes tenham de mergulhar num mar caótico de resmas de papel com capa, sejam elas de capa mole ou dura tanto faz para o efeito.
Felicidades para a Pó dos livros.