sábado, junho 15

Biblioteca pessoal



A biblioteca pessoal é uma espécie de espelho do que somos, como uma segunda pele, impressão digital única que nos distingue dos outros. Não há duas bibliotecas iguais. Em geral uma biblioteca pessoal torna-se curta, à medida que o proprietário, curioso, sedento de conhecimento, aumenta a sensação de biblioteca incompleta. A biblioteca pessoal pode ser tão pessoal como a roupa que vestimos, íntima, intransitiva, aparência do que desejamos ser, guardada só para nós como um erário precioso. A biblioteca pessoal não se constrói de um dia para o outro, a não ser que se herde uma, mas aí passa a ser impessoal e é forçoso que a leiamos para fazer dela a nossa biblioteca. Leva anos a construir uma biblioteca, livros e mais livros, sempre poucos, escolhidos a dedo. Uma biblioteca não é uma biblioteca pela quantidade de livros que contém, mas pelo carácter dos livros escritos por quem os outros deixaram o seu nome assinalado e para que, necessariamente, faça jus ao nome de biblioteca. Doutra forma é apenas um amontoado de papel, bibelots coloridos que servem de adorno a uma prateleira qualquer. E quem não entender isto, para quem não tiver sensibilidade nem espírito, basta apenas um mau livro para possuir uma biblioteca folgada.

Livreiro anónimo

5 comentários:

I. disse...

Gostei muito!

Jasmim disse...

exactamente!
...mas há também a(s) biblioteca(s) fantásticas de que fala Zoran Zivkovic...

Pó dos Livros disse...

Jasmim,

Verdade, um livro excelente. :)

Pedro Carneiro disse...

E que dizer da biblioteca de Borges? Ao que consta não guardava os livros que lia, por isso a sua biblioteca terá sido a Biblioteca Nacional onde trabalhou. Cómodo não?

SEVE disse...

E não deixa de ser verdade o que, sobre uma biblioteca, creio ter dito Eduardo Prado Coelho: numa biblioteca pessoal há 80% de livros por ler.