segunda-feira, julho 1

Concílio do Amor




Peguei por acaso neste livro sobre o Céu, não, não estou a falar do livro «O Céu Existe Mesmo», que vendeu milhões de exemplares, o que até hoje não entendi porquê. Estou, isso sim, a falar do livro «O Concílio do Amor», de Oskar Panizza (1853-1921), Editorial Estampa (1974). não sei se este livro vendeu muito, mas duvido, tendo em conta que se trata de uma peça de teatro, mas também não interessa. É um livro que apesar da data de edição ainda se encontra disponível, quer dizer, ainda se encontra em algumas livrarias que tenham fundo editorial. A capa não é atraente, o autor pouco me dizia, mas o título chamou-me à atenção. Resolvi dar uma vista de olhos só para saber do que se tratava. Comecei pelo prefácio de André Breton o que me levou a lê-lo. Basicamente a cena desenrola-se no Céu, onde podemos encontrar seres etéreos, como querubins, anjos, Deus Pai, Jesus, Maria, sem faltar o Diabo. O livro é hilariante. Imaginem um Deus Pai, sob os traços de um ancião de idade bastante avançada, barba e cabelos brancos, olhos grandes, papudos e inexpressivos, cabeça curvada, espinha arqueada de cifótico. Envergando uma longa veste de um branco sujo, apoia-se nos ombros de dois querubins, tosse e limpa catarro da garganta, arrasta os pés e anda curvado para a frente. Um Jesus que não passa de um imbecil, mais não faz do que repetir, como um papagaio, tudo o que os outros dizem. Uma Maria fútil que não se importa com outra coisa a não ser com a sua imagem. Um diabo que acaba por ser, entre todas as personagens, o mais inteligente e complacente. O móbil da acção é o concílio que Deus Pai resolve realizar. Com o fim de punir os homens que em Nápoles, Itália (1495), praticam os mais ignóbeis pecados e vícios, onde mulheres, de seio nu, correm, lúbricas, pelas ruas e os homens se consomem em ardores de bode, chama o Diabo para engendrar um castigo que só este podia engendrar. Muitos dirão que este livro não passa de uma blasfémia ofensiva, sem interesse a não ser beliscar a fé. Pois, foi exactamente isso que aconteceu, na época, ao autor desta peça de teatro que teve de cumprir prisão por blasfémia à conta de se ter metido com os deuses. O livro contém também a defesa que Panizza fez no processo movido ao «Concílio do Amor» perante o tribunal Real de Munique em 30 de Abril de 1895.

Este livro não «prova» a existência do Céu como no livro supra citado, «O Céu Existe Mesmo», mas garanto que abrange mais verdade numa só linha do que o outro em toda a sua extensão. Claro, é a minha opinião.

Jaime Bulhosa

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