sexta-feira, julho 5

Dedicatória

Que punição será para mim se os livros tradicionais se transformarem, como parece estar a acontecer, em bits informáticos. Não é só o objecto, o toque do papel, o cheiro que se perde, é também a memória. Os livros digitais são muito mais efémeros, impessoais que os livros em papel. Eles não se vêem, não terão estantes onde os guardar e perder-se-ão relíquias, recordações que os livros antigos trazem consigo, como é o exemplo desta deliciosa dedicatória encontrada num livro, de José Rodrigues Migués, «Uma Aventura Inquietante» (ou não?…) Transcrevo aqui a dedicatória para aqueles que não consigam decifrar a letra:

Lisboa 30/05/81

Cândida,

Não achas que seria mais belo e sobretudo mais lógico, juntarmos os corpos às almas?...

Manel

Jaime Bulhosa

4 comentários:

André Carvalho disse...

Que dedicatória tão bonita... Eu não gosto de fazer dedicatórias em livros porque acho-me sempre incapaz de as fazer tão bonitas, e passíveis de prejudicar o livro (ao contrário desta).

Mas o que queria dizer é que, pecador me confesso, tenho um kindle, e é muito prático - no entanto concordo em absoluto com este post. Em geral se gosto de um livro ou se antevejo que vá gostar e querê-lo na minha memória, querer senti-lo todo, prefiro o papel. Mas alguns livros que não me importava de pedir a uma biblioteca a um amigo, esses leio-os no e-reader.

Acho que como qualquer leitor que o é por gosto, há certas edições dos meus livros favoritos que têm um significado especial para mim - e outro objecto com a mesma informação, seja uma nova edição ou um livro digital - pura e simplesmente fica aquém de o substituir.

helena frontini disse...

Que bonito! Eu adoro as dedicatórias dos autores e de quem me oferece os livros. Todos os anos compro um livro pelo Natal à minha filha com dedicatória do autor.

argumentonio disse...

uma dedicatória ridícula!

oxalá tenha sido irrevogável ;_)))

Pedro Carneiro disse...

Caro Jaime.
Um dia comprei (!) um livro, em segunda mão, na Livraria Utopia de um autor que prezo imenso. "Palmeiras Bravas" traduzido por Jorge de Sena. E o que encontrei' Algo que me nunca tinha passado pela cabeça fazer nem encontrara até então. O livro estava sublinhado. O benefício de ler em segunda mão foi esse. Ao mesmo tempo que eu lia estava a ler pela outra pessoa porque reparava, como não podia deixar de ser, no que ela sublinhava e isso estava sempre a levar-me a questionar-me qual o porquê daquele sublinhado naquela frase e naquela página. Tive uma enorme curiosidade de conhecer a pessoa por causa da sua leitura do livro de Faulkner. Livros digitais? Ahhgghhh!!