quinta-feira, julho 18

Sá da Costa 100 anos


Livrarias fechadas: Portugal, Barateira, Camões, Guimarães, Diário de Notícias. Livrarias a fechar: Olisipo, Artes & Letras, Sá da Costa. Esta é a lista das livrarias que recentemente fecharam ou estão para fechar só na zona nobre da cidade de Lisboa. A Livraria Sá da Costa, dias depois de cumprir cem anos, vai fechar portas este Sábado, é irónico. Livrarias centenárias que de um momento para o outro deixaram de ser viáveis? Livrarias de encontro, de tertúlia, de cultura que já não fazem sentido? Livrarias onde o espaço era público, onde nos podíamos sentar gratuitamente a ler um livro, não têm agora qualquer relevância? Lugares de identidade que nos diferenciavam de outros lugares todos iguais, franchisados, estilizados, aqui, em Madrid ou em Paris, vão ser transformados em sapatarias ou padarias ao estilo francês? Livrarias que eram de todos nós ou não eram?
Alguma coisa estranha se passa nesta cidade ou melhor neste país. Um país onde cada vez menos se gosta de viver. Um país onde as políticas são feitas para o mercado e não para as pessoas. Um país onde a pobreza não nos deixa pensar noutra coisa a não ser como vamos viver no dia seguinte. Um país assim, naturalmente, não tem ânimo para a indignação, nem para a revolta. Um país assim está morto.


Jaime Bulhosa

17 comentários:

SEVE disse...

É uma tristeza, uma vergonha para esta maldita gente que nos governa, para estes liberais que só sabem falar em mercados, em nasdak's vendam tudo enquanto os mercados vos quiserem, fechem as portas, até quando estes bandidos continuarão a ultrajar-nos?

Rubi disse...

:(

alexandra g. disse...

Um país assim não é um país.

Ana Godinho disse...

Que tristeza!
Vão acabando com tudo.

Anônimo disse...

Eu entendo e também sinto toda a tristeza expressa neste post.

Mas uma livraria não é um negócio? Se não há clientes o que se há-de fazer?

Devia o estado ou CML manter artificialmente a livraria aberta sem clientes?

A Sá da Costa era uma das minhas livrarias, estou triste. Mas também não vejo qual possa ser a solução para este mal que já matou alguns dos locais onde me formei.

No fundo, a culpa é de todos nós. Quando foi a última vez que comprámos um livro na Sá da Costa?

Anônimo disse...

Há uma livraria em Lisboa que resiste e se vai afirmando como uma referência. Chama-se Pó dos Livros. Porque será? Será porque os governos e os mercados são maus para os outros todos mas são bons para a Pó dos Livros?
Não me parece.
Não tenho pena nenhuma destas livrarias que fecharam. Porque lá, ao contrário do que acontece na Pó dos Livros, eu não era saudado quando entrava. Eu, que não sou um intelectual brilhante, raramente lá encontrava um livro "normal". Era uma livraria muito boa mas muito especializada, ou muito específica. Num espaço daqueles? Será que não dava para venderem livros mais "comuns"? Eu não falo de Dan Brown e outras excrecências, falo de prémios Nobel, por exemplo. O que eles tinham era pouquissimo. Ao contrário da Pó dos Livros, onde a oferta é variada e de qualidade.
As livrarias em causa fecharam porque eram uma treta. Podem ter sido boas no passado (e foram). Mas não eram já. Eram terríveis.
Pena que alguém que monta uma boa livraria seja tão pouco exigente com os outros, preferindo atribuir aos do costume as responsabilidades que são dos próprios.
JM

Anônimo disse...

Pego na questão do anónimo:

"Quando foi a última vez que comprámos um livro na Sá da Costa?"

e coloco outra:

Quando foi a última vez que a Sá da Costa teve à venda livros que interessasse às pessoas comuns comprar?

Kate Doors disse...

Não é um problema apenas lisboeta. Em Paris, no Quartier Latin, as livrarias também estão a desaparecer, numa zona que começa a interessar as marcas internacionais/ multinacionais, capazes de pagar rendas mais altas. O que a mairie do Delanoe está a fazer, devagarinho, é tentar comprar as lojas para as arrendar a livrarias com rendas bonificadas e comportáveis. O problema, em casos como a Sá da Costa, é em caso de venda a CML exercer a preferência para comprar uma livraria que está na rua com o m2 comercial mais alto da cidade...

Fernando Frazão disse...

É triste, é muito triste e no entanto corroboro as opiniões aqui expressas de que a culpa é nossa.
O governo, os liberais e quejandos não compram livros. Nós compramos.
Eu moro em Alcanena e ontem, de visita à capital para ver os netos, arranjei um tempo para ir à Pó e comprar uns livros que tinha na agenda.
Nós, os leitores, somos o sangue que os mantem vivos.
Continuemos a dar, por muitos e bons anos

Pedro Carneiro disse...

A política editorial concentrada em dois ou três grupos tipo Porto Editora e Leya não ajuda à missa? E as lojas FNAC, que influência têm? A explicação de as livraria fecharem, para mim, é muito simples. Concorrência e o falso gosto de ler de muitos falsos leitores.

SEVE disse...

Sei que estamos a construir uma nova sociedade em que apenas e somente o lucro interessa, mas, perdoem-me mas ainda não há muito tempo comprei lá uns 5/6 livros a € 5 cada, e dentre estes até havia alguns bem interessantes. E uma livraria centenária deixou, assim de um momento para o outro de ser rentável??? creio que também houve ali uma má gestão e, neste caso, porque se trata de um património público, quem geria mal teria de ser julgado.

Pôr do Sol disse...

Locais de culto, sim! Mas quem os sustenta?

Não falo como senhorio, mas deixo tambem uma pergunta pretinente:

Quando foi a ultima vez que a renda da Sá da Costa foi actualizada?

rmg disse...


Totalmente de acordo com os últimos três comentários que li aqui .
Mas que raio , todos nós que gostamos de livros e COMPRAMOS LIVROS (no meu caso BASTANTES) sabemos porque é que a Sá da Costa, a Portugal e outras desapareceram (já nem falo da Barateira , com os mesmos livros há 10 anos pelo menos ...).

Mal geridas , clientes tratados por favor , preços sem nexo , ofertas mais que discutíveis , nenhum esforço para ajudar a encontrar seja o que fôr(ao contrário da Pó dos Livros ...).

Meu caro : sou seu cliente via minha mulher e admiro a sua luta .
Agora , como está escrito atrás e muito bem por outro comentador , fazer uma defesa "corporativa cega" não era algo que eu esperasse de si .
Este post é infeliz .

Mas leva o abraço à mesma !

RuiMG



rmg disse...


Desde que em 1960 , com 14 anos , punha todos os tostões de lado para os gastar na Livraria Barata da Avenida de Roma , um espaço exíguo e atravancado que – esse sim – foi um verdadeiro local de culto pelo menos até 1974 , que os livros me enchem a casa de Lisboa e outra que há 30 anos comprei em ruínas e recuperei ,no centro do país .

O Sr. Barata fazia 10% de desconto para “fidelizar” o miúdo que eu era e aqueles mesmos livros ainda hoje os tenho todos (todos mesmo) , “religiosamente” guardados , fora de Lisboa e da poluição .

Entretanto meu Pai era um bom cliente da Sá da Costa pois não só comprava lá tudo como ainda mandava encadernar os livros todos lá .
Sendo nós vários irmãos fiz questão de ficar com toda a colecção dos “clássicos” editados por essa livraria quando meus Pais faleceram .

Andei por muitos sítios de que relembro a Buccholz e a sua total “desorganização organizada ” , sempre a ouvirmos “não toque em nada , diga o que quer e nós damos-lhe”.
E hoje , reformado que almoça todos os dias na Baixa , visito a Férin onde o nosso amigo João Paulo fala da mesma maneira a todos que lá entram , gastem mil euros ou gastem dez euros .
A minha mulher , por seu turno , só vê a Pó dos Livros …

Talvez estas vivências me façam ter menos paciência para muita coisa e , por isso mesmo , mais admiração por certas pessoas a quem , como sempre , se acaba por não “perdoar” algo .
Portanto se ontem fui um pouco mais brusco em relação ao seu escrito , leve isso à conta do que lhe conto aqui.



RuiMG


P.S.- Quando ontem escrevi não tinha lido ainda o comentário de “Pôr do Sol” .

Segundo noticiava o jornal “SOL” em 14 de Março de 2011 , quando o tribunal decretou a venda judicial da livraria , a renda era de 179 € .
Terá entretanto sofrido em 2012 e 2013 os aumentos anuais normais .

Isto é coerente com a entrevista dada há dias a um canal de TV por uma responsável daquele espaço (omito o nome) que , indagada sobre o assunto , acabou por dizer que não chegava a 200 € .

Em resumo , mais ou menos o que um reformado com dificuldades (o que felizmente não é o meu caso) paga por um andar atarracado nos arredores .

Pó dos Livros disse...

RuiMG,

Não fiquei nada melindrado com o seu comentário e acho até que tem alguma razão. :)
Jaime

rmg disse...


O meu amigo já conhecerá .
Mas outras pessoas talvez não e , não lhe ficando bem a si mostrá-lo, acho que me fica bem a mim indicá-lo .

Refiro-me aqui em especial aos comentários a este correctíssimo post e ao que tantos (tal como eu) pensam da Pó dos Livros :

http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/195520.html

RuiMG

Anônimo disse...

A Livr. Sá da Costa nem se percebe como ainda está aberta. Os preços dos seus livros são exorbitantes em relação a outras livrarias semelhantes.