quarta-feira, novembro 13

Inteligência canina


Ouvi à frente da livraria um ganir de cachorro, dirigi-me lá fora para ver o que se passava. Vi um homem a chicotear um cão com trela sem motivo aparente. O animal estava aterrorizado de orelhas baixas, olhos tristes e cauda entre as pernas. Resolvi perguntar ao homem porque maltratava o bicho. A resposta foi desconcertante:

- O animal não tem inteligência e por isso não sofre e para além do mais, o que é que você tem a ver com isso?

Depois disto seguiu caminho puxando o cão violentamente. Não pude fazer nada. No entanto, socorro-me de uma história da literatura que serve bem de exemplo para o que quero dizer:

A história é famosa e prolonga-se ao longo dos séculos, contada tanto por Plutarco como por Plínio: um cão segue o dono com o faro, passados uns quilómetros, perde momentaneamente o rasto e chega a uma encruzilhada na estrada onde tem de escolher entre três caminhos. Correu ao longo do caminho da esquerda, a farejar, parou, e voltou ao ponto de partida. Seguiu pelo caminho do meio, durante um certo troço, sempre a farejar, até que voltou para trás de novo. Por fim, já sem farejar, meteu-se alegremente pelo caminho da direita.
Montaigne, comentando esta história, afirmou que ela mostrava com clareza o raciocínio silogístico canino: o meu dono foi por um destes caminhos. Não é do da esquerda; não é o do meio; por conseguinte, tem de ser o da direita. Não tenho necessidade de confirmar esta conclusão com o faro, pois ela decorre da mais estrita lógica.
A possibilidade de existir nos animais um raciocínio deste tipo, embora talvez menos articulado de forma menos clara, era perturbadora para muitas pessoas e pelos vistos continua a ser.

Jaime Bulhosa

6 comentários:

Cristina Torrão disse...

A possibilidade de os animais possuírem raciocínio e sentimentos é perturbadora para muita gente, sim. Na minha opinião, demonstra uma grande falta de autoestima, mas enfim... Quando abordo este assunto, em certos meios, sou insultada de "imbecil infantilizada".

Admira-me é que o dono de um cão pense assim. Mas os humanos constantemente surpreendem pela negativa :(

Celeste Silveira disse...

Lamentavel mesmo, é haver pessoas como a que postou, "donas" de cães.

SEVE disse...

Curiosamente conheço mais cães inteligentes do que pessoas inteligentes (e tou a falar a sério).

Cristina Torrão disse...

É verdade, Celeste. E pergunto-me sempre porque pessoas dessas têm um cão :(

Acredito, Seve. Se há algo que admiro nos animais é a sua capacidade de aprender com os erros. Já as pessoas...

Anônimo disse...

Há bestas em todos os quadrantes da vida animal, mas só uma besta supera todas as outras: o Homem.
Maria L

Ana Matrena disse...

Estas situações em breve terão consequências. A pouco e pouco evolui-se!

https://www.facebook.com/ONGANIMAL/posts/10152001431187954