terça-feira, janeiro 29

A Crise Rebentou



De um momento para o outro, as acções caíram. Não era possível entender: até há uns dias eram só recordes de alta, uns atrás dos outros. Dinheiro fácil para qualquer pessoa que entrasse no jogo. Agora não. O dinheiro tinha desaparecido. Tanta gente tinha perdido tanto no mercado financeiro que já nem os bancos emprestavam – uns por medo de que os clientes que pediam empréstimos estivessem tão falidos que não iriam pagar nunca; outros porque estavam com as calças na mão.
Sem poderem contrair empréstimos para pagarem as suas dívidas, as empresas faliam umas atrás das outras. O desemprego aumentou, e quem continuava a trabalhar não tinha nenhuma certeza de que continuaria a ter trabalho. Por precaução, as pessoas começaram a economizar, comprando apenas o essencial.
Aí é que as coisas foram para o buraco de vez: as empresas, que já não tinham crédito no mercado, ficaram sem clientes. Falência geral: 72 companhias em 100 fecharam as portas. As que não morreram acabaram gravemente feridas. Até as acções da maior empresa do mundo caíram 80%, depois de terem atingido o seu maior valor de mercado na história. O governo precisava de agir para evitar o desastre completo. Primeiro agiu com a boca, apontando o grande culpado pela crise: a ganância dos investidores, que estavam a transformar a economia num casino. «Vamos restringir as práticas perniciosas dos negociantes de acções», disse o presidente da Câmara. Um analista financeiro resumiu bem o espírito de indignação: «qualquer pessoa poderia ter previsto que a alta das acções a um preço tão superior ao que elas valem teria uma consequência fatal».
Esta história serviria para narrar com alguma precisão o desenrolar da crise de 2008, mas aconteceu em 1697, no Reino Unido.

In Alexandre Versignassi, Crash

sexta-feira, janeiro 25

Ficar hoje na Pó dos livros

Hoje, 25 de Janeiro, às 18h30, realiza-se na Pó dos livros o lançamento do romance Ficar, de Pompeu Miguel Martins, edição Labirinto. A apresentação estará a cargo do escritor Victor Oliveira Mateus.



(para ampliar clique sobre a imagem)

quarta-feira, janeiro 23

O livro nem sempre foi democrático


Que o livro se democratizou é uma realidade inquestionável. Hoje em dia, tem-se acesso aos livros um pouco por toda a parte. Quase poderei dizer que, actualmente, toda a gente sabe o que é um livro. Não digo que todos tenham lido um livro, mas, provavelmente, já viram ou até já lhe tocaram. Quando comecei a trabalhar em livrarias, há mais ou menos 28 anos, ainda existia gente que tinha receio (não sei bem porquê) de entrar nesse local “sagrado” que eram as livrarias. Não que não houvesse, por parte dessas pessoas, interesse pelos livros, mas a verdade é que era muito mais por mera curiosidade, como aquela que se sente por aquilo que sabemos não poder atingir, do que por um verdadeiro empenho em os adquirir. Podem achar exagerado, mas a verdade é que essas pessoas apenas olhavam para a montra e, quando muito, através dela para dentro da loja. Como quem olha para um clube privado inglês, a que só alguns têm acesso, cheio de gente com poder, um pouco excêntrica por gostar daqueles artefactos estranhos, que contém segredos inescrutáveis, só ao alcance da sabedoria, entendimento e carteira de alguns privilegiados. Obviamente, havia aqueles mais afoitos que se atreviam a entrar, a medo, muito discretamente, olhando em volta, deslumbrados por aqueles objectos cheios de cores que, para eles, sempre tinham sido intangíveis. Com muito respeito, humildade, servis e as palavras escolhidas, nunca tocavam nos livros sem antes pedir autorização, depois voltavam, com muito cuidado, a colocá-los no mesmo lugar, como se fossem frágeis, como copos de cristal. Sem darem conta, revelavam a sua condição quando ousados comentavam:
- Que linda papelaria o senhor aqui tem! E os livros são todos ao mesmo preço?

Curiosamente estes tempos parecem querer estar a voltar (agora por motivos económicos) aos dias do velho livreiro, já falecido, que me contava a história de como antigamente, não há tantos anos assim, durante o Estado Novo, eram poucos os que entravam nas livrarias e aqueles que entravam nem sempre eram clientes. Acrescentava:
- Naquele tempo, havia livros proibidos, que se vendiam unicamente por debaixo do balcão, eu só os vendia quando tinha a certeza de que era mesmo um cliente que tinha à minha frente, não fosse ser apanhado.
Perguntei-lhe como conseguia distingui-los. Disse-me:
- A maior parte, já os conhecia, eram sempre os mesmos; mas, em caso de dúvida, tinha um método infalível para os distinguir. Fazia-lhes, dissimuladamente, um pequeno teste de cultura geral, antes de lhes dizer se tinha ou não o livro. Se passassem no teste, eram clientes, se não passassem, eram agentes da PIDE.

Jaime Bulhosa

segunda-feira, janeiro 21

O Génio Caído



Era um livro procurado há várias semanas por quase todas as livrarias de Lisboa e a cliente queixava-se de que obtinha invariavelmente a mesma resposta:
- O livro «O Génio Caído», não temos não senhora!
A cliente dizia que era um texto político, muito conhecido, do século XIX. O autor, ainda mais conhecido, Camilo Castelo Branco.
- Peço desculpa, mas de facto não temos nenhum registo de um livro, de Camilo Castelo Branco, com esse título.
- No entanto, - diz a cliente, já um pouco alterada – é um texto muito actual, satírico, sobre um político que luta contra a corrupção e que depois, ele próprio, se deixa corromper. Ouvi falar muito bem sobre este livro na televisão e achei interessante, nos tempos que correm, poder oferecê-lo a uma amiga. Só acho extraordinário que um livro tão famoso e falado na televisão não exista em lado nenhum. Francamente, não percebo para que é que servem os livreiros!?...
O livreiro habituado a livros impossíveis, soma um mais um, e resolve facilmente o enigma:
- Por acaso, a senhora não estará equivocada?
- Como equivocada?
- Não terá confundido «O Génio Caído» com «A Queda Dum Anjo»?
- Será!... Como descobriu?
- Leio!

Jaime Bulhosa