quinta-feira, março 28

A língua portuguesa é tramada




Na zona infantil da livraria uma senhora muito simpática pede, de forma prolixa, ajuda:
- Necessito do seu conselho. É para oferecer à minha neta. Tem que ser alguma coisa ligeira, um livro fino, uma boa aventura, com romance e personagens, bem escrito, mas curto. Não sei se está a perceber? É que agora os miúdos não gostam de ler, não é como no meu tempo em que não havia televisão e se lia muito. Quero iniciar a miúda na leitura, é que se nota algumas lacunas na sua ignorância, está a entender?
O livreiro não interrompe, mas fica a pensar nas lacunas-da-ignorância. A cliente continua:
- Enfim, queria que me indicasse alguns livros que uma menina de treze anos consiga ler de olhos fechados. 

segunda-feira, março 25

Como tornar-se um leitor em 10 passos.


1.º – Escolha uma data para começar a ler e respeite-a.

2.º – Evite começar por livros considerados literatura light, pois embora o nome seja encorajador não reflecte de todo a realidade e pode destruir a melhor das intenções.

3.º – Livre-se de todos os telemóveis, ipad,  playstation, dvd e afins que tenha por perto.

4.º – Depois de começar a ler não pode parar sem, pelo menos, chegar ao fim do primeiro capítulo; deixá-lo a meio aumenta consideravelmente o risco de desistir antes mesmo de ter começado.

5.º – Para se auto-motivar, pense, muitas vezes, em todos os benefícios da leitura.

6.º – Evite a proximidade de pessoas que estão a bocejar e deitadas no sofá a ver os programas de televisão que passam em horário nobre.

7.º – Peça ajuda a um profissional - pode ser um livreiro, um editor, um professor, etc. – ou participe em fóruns e blogues da especialidade. Estas comunidades de leitores ajudá-lo-ão a integrar-se mais facilmente na sua nova realidade.

8.º – Mude de hábitos, a fim de evitar locais onde possa conviver com pessoas completamente desinteressantes.

9.º – Não faça pausas muito grandes e complemente-as com a leitura de um jornal, revista, de banda desenhada ou de uma história infantil.

10.º – Parabéns. Se chegou até aqui é porque já é quase um leitor. No entanto, evite os entusiasmos exagerados, como, por exemplo, passar a considerar-se um intelectual.
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Boas leituras

quinta-feira, março 21

Imbeciclopédia XXIX



Dentro de um livro antigo encontramos um teste de Ciências da Natureza de um aluno do ensino secundário. O aluno respondia assim a uma das perguntas do professor sobre a utilidade económica da vaca:

A vaca 

A vaca é um mamífero cujas pernas chegam ao chão. A vaca produz carne, mas não põe ovos como as galinhas.
Na cabeça da vaca, crescem cerca de dois olhos e compridas orelhas de burro. Dos lados tem dois ossos curvos que parecem cornos. Atrás do dorso tem outra coisa: a cauda, cuja extremidade serve para sacudir as moscas. Comemos o interior da vaca, mas do seu exterior os sapateiros fazem coiro. Aos filhos das vacas chamam viste-lo porque é muito raro.
A vaca não come muito, mas aquilo que come mastiga-o duas vezes e assim fica satisfeita. Quando tem fome, muge e quando está calada é porque o seu interior está cheio de erva.
Debaixo da vaca, há o leite e ela está equipada para a poderem ordenhar. Antes de o fazer, as leiteiras lavam as mãos, as tetas e o balde.
Para evitar que entrem os micróbios, é preciso fechar as portas dos estábulos.
Os lavradores têm perdas porque os bois da lavoura fatigam-se e dão menos leite.
A vitela é um vitelo que ainda não é vaca.
A vaca tem um vitelo cada ano, graças ao toiro que é uma vaca sem tetas. Os vitelos mais apreciados são provenientes do acasalamento dum pai preto e duma vaca branca o que dá uma vaca malhada.
Na inseminação artificial, é o veterinário que faz de boi.

quarta-feira, março 20

Poesia na Pó dos livros

Hoje, 21 de Março, dia mundial da poesia, às 18h30, será apresentada na Pó dos livros, a antologia poética Cintilações de Sombra, edição Labirinto e Núcleo de Artes e Letras de Fafe. A apresentação estará a cargo de Cristina Carvalho, Maria João Cantinho e Victor de Oliveira Mateus.
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Pó no jardim do Palácio Galveias

Amanhã, para assinalar o dia mundial da poesia, no jardim do palácio Galveias, no Campo Pequeno haverá um Mercado de Livros Usados, um Círculo de Leitura aberto a quem quiser participar, coisas a acontecer na Biblioteca e outras coisas, não menos extraordinárias, para comer e beber no  Quiosque e, claro, a Pó dos livros também vai lá estar.


quinta-feira, março 14

Hoje na Pó dos livros

Hoje, 14 de Março, às 18h00,  na Pó dos livros, será apresentado o livro de João Baía SAAL e Autoconstrução em Coimbra - Memórias dos Moradores do Bairo da Relvinha 1954-1976, edição 100 Luz e Instituto de Literatura Tradicional. A apresentação estará a cargo da historiadora Luísa Trigo e do realizador João Dias.

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quarta-feira, março 13

Revolução Francesa ou o Contrato Social





Um ar gingão, alto, magro como só alguns adolescentes. Calças muito abaixo da linha da cintura. Olhos vivos pretos, pretos, da mesma cor do cabelo penteado de uma maneira que não sei descrever e que lhe dava um look alternativo, mas ao mesmo tempo seguro. Depois, dirigiu-se ao balcão parecendo ter a lição bem estudada:
- Eu desejava um livro que o meu professor de história me mandou comprar – nisto, encolhe os ombros, faz um esgar, como quem diz o meu professor é um chato, sorri e continua –, não é obrigatório, mas o meu professor diz que é absolutamente necessário – e repete o mesmo trejeito –.
O livreiro antevê que vem de lá disparate.
- Sim, por favor, qual é o título do livro?
- Pois, aí é que está o problema, esqueci-me do título. Todavia, lembro-me perfeitamente dos três autores.
- Isso é óptimo! – desabafa o livreiro mais sossegado –. E quais são os autores?
- São aqueles… tipo!... Os três principais percursores da Revolução Francesa o Jean, o Jacques e o Rousseau.

Jaime Bulhosa

terça-feira, março 12

Caro e muito respeitado Mestre



Um dia ainda editamos um livro, com a chancela Pó dos livros, só com as cartas que encontramos dentro dos livros usados. Esta é outra de muitas pérolas que vamos aos poucos juntando. A carta datada do ano de 1963 demonstra bem o servilismo do «operariado» que «era», no mínimo, vexatório. Se não acreditam leiam:

Caro e muito respeitado Mestre;

O meu filho da idade de nove anos, e que é também seu assíduo e obediente aluno, Pedro, não poderá ir à escola hoje, visto que é obrigado a substituir seu pai, que é, como sabe, porteiro da fábrica do senhor X.
Na última lição, o senhor fez o favor de dar como exercício ao nosso Pedro o seguinte problema: quanto tempo levará um homem a dar duas voltas e meia em redor dum campo que tem quatro quilómetros de comprimento e três de largura, dado que esse homem faz exactamente três quartos de quilómetro por hora?
Ora, respeitado senhor e mestre, nem o pobre Pedro, nem seu pai, que é porteiro do senhor X, nem eu própria, que sou uma sua humilde criada, não conseguimos resolver o problema.
Como, no entanto, estamos dispostos a dar uma educação e uma instrução perfeitas ao nosso filho único, depois de reunido o conselho de família encarámos a solução seguinte, para a qual pedimos e esperamos a sua alta aprovação.
O Pedro vai substituir hoje seu pai, nas funções de porteiro da fábrica. Seu pai, meu esposo, irá logo de manhã a um campo vizinho, para lhe medir, em primeiro lugar, o comprimento e a largura. Em seguida, com o seu relógio na mão – que é um relógio comprado no melhor relojoeiro da cidade e garantido por dois anos –, fará exactamente três quartos de quilómetro por hora em volta desse maldito campo, até que tenha feito duas vezes e meia a volta completa, para comunicar ao nosso querido filho Pedro o tempo que gastou.
Visto sermos simples operários e que cada minuto é precioso para nós, venho rogar-lhe, caro e muito respeitado Mestre, a sua benevolência no sentido de dar, de futuro, ao nosso querido filho único Pedro, só problemas que ele possa resolver sentado à sua banca de trabalho e sem ser necessário que ele ou seu pai dêem tantas passadas.

Sua criada, humilde e devotada,

Maria X  

segunda-feira, março 11

No final da carta



No livro antigo ou usado, como quiserem chamar-lhe, não são só os textos que fascinam, nem, somente, os autores. O aroma doce, das folhas oxidadas pelo tempo, inebria. As traduções de homens e mulheres que há época não eram unanimemente reconhecidos são hoje nomes como José Rodrigues Miguéis, José Saramago, Vitorino Nemésio, Mário Henrique Leiria, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Ondina Braga e outros tantos que garantem a qualidade. As capas vintage de artistas como Vitor Palla, Paulo-Guilherme, Sebastião Rodrigues, João da Câmara Leme e A. Garcia transformam o objecto numa autêntica obra de arte e maravilham (se virem algum livro com um destes  nomes comprem, eles valem só pela capa). Mas o livro antigo traz mais consigo, dedicatórias de página inteira a personalidades de diversas áreas da cultura valorizam-no e os objectos encontrados dentro do miolo, como, por exemplo, um bilhete de teatro ou de uma viagem de comboio de Lisboa-Coimbra levam-nos para longe. Um postal, uma carta de amor, contam histórias, retratam costumes e modos de viver, muitas vezes, de todos os tempos.
Foi precisamente isso que aconteceu ao abrir um destes livros e deparar-me com uma carta datada de 1949, escrita com a caligrafia redonda e legível de uma mulher. A carta estava escrita num tom amargurado e demasiado formal, talvez fosse assim nos anos quarenta, o papel estava com marcas de ter sido amarrotado com raiva. A missiva é longa e não a posso aqui transcrever na totalidade, até para manter a privacidade. Porém, deixo-vos o post-sicriptum que é delicioso e explica de forma clara o tipo de relacionamento entre a autora da carta e o seu receptor.

(no final da carta)

P.S. Não pense que estou zangada, não o trato por tu, como é costume, por ter receio que esta missiva vá parar as mãos de sua mulher.    

Jaime Bulhosa

sexta-feira, março 8

A Cultura




Que os tempos estão difíceis não há dúvida. Anteontem assaltaram-me o carro, lançaram uma pedra de calçada que me estilhaçou o vidro do lado do passageiro em milhares de pequenos fragmentos, para me roubarem um saco de compras com leite e pão, um casaco velho e uma mala de senhora de plástico. Dentro do carro também estava um livro que era simplesmente uma 1.ª edição espanhola, de 1816, das «Fábulas» de Florian, com 52 estampas recortadas manualmente e coladas nas páginas do livro. O valor estimado deste volume ronda qualquer coisa como 250 euros, mas para meu espanto permaneceu no lugar onde estava. Fiquei como devem imaginar contente, mas ao mesmo tempo fez-me pensar que a cultura, o livro, nos tempos que correm, não valem mesmo nada. 

Jaime Bulhosa

Deste lado do balcão



É um milagre ou um miráculo, um acontecimento extraordinário que, à luz dos sentidos e dos conhecimentos, não tem explicação científica conhecida; o facto de uma pequeníssima empresa como a Pó dos Livros, numa conjuntura de crise como a que vivemos, das políticas arrasadoras, da falta de crédito e dos impostos absurdos, ainda permanecer aberta ao público, parece quase uma intervenção divina ou somente casmurrice. Não posso falar pelos outros, mas julgo que a aflição seja a mesma em todas as livrarias, editoras ou qualquer outro tipo de comércio e indústria o cenário deve ser negro, desesperante, depressivo, já nem mesmo os leitores fiéis têm «coragem» para comprar livros, nem se atrevem a entrar na livraria com medo de não resistir ao impulso e gastar o dinheiro do almoço. Passam em frente da montra comem com os olhos amargurados, os títulos dos livros expostos, e seguem em frente cabisbaixos.
Dia-a-dia a música de fundo, a companhia dos colegas com medo de perder o emprego, a leitura dos livros que ninguém compra, a correspondência do Estado a cobrar e o murmúrio das queixas legítimas dos credores são as únicas companhias para quem está deste lado do balcão.

Livreiro anónimo