terça-feira, abril 23

Dia Mundial do Livro



Hoje é Dia Mundial do Livro e… desculpem-me, mas não consigo festejar. Porque, ao mesmo tempo, em muitos anos, não se vai realizar a Feira do Livro do Porto. Porque, ao mesmo tempo, livrarias com décadas de existência estão a ser despejadas por causa de uma nova lei das rendas que é completamente cega. Porque, ao mesmo tempo, muitas livrarias tradicionais estão a fechar portas ou a caminho disso, contribuindo para a desertificação dos bairros, das cidades e para o empobrecimento do abastecimento espiritual e cultural daquelas zonas. Porque, ao mesmo tempo, existem centenas de jovens arquitectos desempregados e sem perspectiva de futuro profissional a não ser a de emigrar, apesar de existirem centenas de prédios vazios, com fachadas centenárias, lindas, a cair, literalmente, de podres. Porque, ao mesmo tempo, vejo jovens licenciados em Direito sem trabalho e uma justiça para ricos e outra para pobres. Porque, ao mesmo tempo, vejo os meus amigos, primos e irmãos ficarem desempregados aos cinquenta anos. Porque, ao mesmo tempo, vejo crianças que não têm em casa um único livro, mas pior do que isso, não têm uma refeição decente a não ser aquela que a escola lhes dá. Porque, ao mesmo tempo, vejo famílias inteiras a ser despejadas, separadas e a viver de favor em casa dos outros. Porque, ao mesmo tempo, vejo velhos e doentes sem dinheiro para se tratarem. Porque, ao mesmo tempo, vejo os políticos especularem com o dinheiro público, perderem-no aos milhões e não serem responsabilizados. Porque, ao mesmo tempo, vejo cada vez mais gente a mendigar nas ruas. Por isto, e muito mais, não posso celebrar o Dia Mundial do Livro, que é, ou deveria ser, um símbolo de liberdade, da liberdade de opinião, do veículo das ideias, da materialização das palavras. Porque é através das palavras que as revoluções se fazem. Porque é através das palavras que as mentalidades mudam. Porque é através das palavras que os direitos são conquistados, porque é através das palavras que nos devemos entender.

Jaime Bulhosa

sexta-feira, abril 19

Cursos de Literatura na Pó dos Livros

(clique na imagem para aumentar)




Curso de Literaturas Americanas

3.ªs feiras de Maio 2013 (4 sessões), 21.00h

Literatura Sul Americana

Literatura Norte Americana

Inscrição 45€

inscrições: podoslivros@gmail.com
  

Este curso apresenta uma visão transversal da literatura norte-americana e sul-americana em dois momentos distintos. Apesar de se localizarem no mesmo continente estas duas literaturas mostram realidades completamente distintas e têm em comum o facto de retratarem a cultura e a sociedade dos seus países, mostrando como as fronteiras tanto se esbatem em zonas delimitadas como é a América do Sul e do Norte como depois são tão marcadas quando saltamos do Norte para o Sul mostrando que muitas vezes a questão dos continentes é meramente geográfica.

Com Rosa Azevedo: nasceu em 1982 em Lisboa. Terminou em 2004 a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, maior em variante de estudos portugueses, franceses e menor em Literaturas do Mundo, em 2008 o mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e dos novos autores portugueses. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte. Foi livreira e hoje é produtora, formadora, revisora e dinamizadora e divulgadora da área dos livros.

E João Silveira: biografia em breve, deste nosso estreante na Pó dos Livros mas não nestas andanças.

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Contemporaneidades na Literatura Portuguesa - Da sociedade aos livros

4.ªs feiras de Maio 2013 (4 sessões), 21.00h 

Livraria Pó dos Livros, Lisboa

Inscrição 45€ 

inscrições: podoslivros@gmail.com

Com rosa azevedo 

Quem são os novos autores portugueses? O que os une e o que os separa? Em que nome escrevem e em que nome surgem em público? Numa época de novas tecnologias, novas formas de aparecer em público, crise económica, intelectual e ideológica, o que é preciso para se ser um escritor? 
O século XXI trouxe novos paradigmas à literatura. A passagem de século é uma passagem temporal como outra qualquer mas a verdade é que foi neste início de século até aos nossos dias que assistimos à explosão da Internet com as redes socias, blogs e meios de divulgação. Com isto os escritores saem do desconhecido para se tornarem figuras públicas facilmente reconhecidas na rua e cuja vida privada acaba por ser conhecida e confundida com a sua obra de forma mais perversa do que antes porque o meio é, arrisco dizer, mais selvagem. Mas há excepções. E há diferentes tipos de leitores e, no limite, são os leitores que fazem uma grande parte do que um escritor é.
Depois podemos ainda reflectir sobre a razão da escrita. O que faz um escritor? Que tipos de escritores existem? O que nos confere autoridade para avaliar as intenções de um escritor? De que forma as intenções de um escritor alteram a forma como recebemos o texto e como o lemos?
Em Portugal proliferam novos escritores. Sofrem em bloco da “angústia da influência” procurando, acima de tudo, a originalidade. A que custo? Em que nome escrevem eles?

sexta-feira, abril 12

Último suspiro




Estava em frente da porta da livraria a fumar um cigarro, a fazer um intervalo entre o vazio de clientes e a azafama de pessoas que passam e pedem esmola. Como não dá para dar moedas a todos, porque são muitos, opto, em vez disso, por dar uns cigarros. Enquanto observava o dia bonito de primavera, com as árvores timidamente a mostrarem as suas novas folhas, pensava no contraste que o dia fazia com o semblante triste da gente que passava. Nisto surge no passeio um rosto vagamente conhecido, mas mais velho e gasto desde a última vez que o vira. Cumprimentei-o e perguntei, só por perguntar, se estava tudo bem. Mas em vez de ter a resposta de circunstância: «Sim, está tudo bem» obtive um: «Não, estou desempregado». Sem saber bem o que dizer, não por ter ficado surpreendido, porque o que nos acontece mais hoje em dia é encontrar alguém que está desempregado, saiu-me da boca, e sem reflectir no que dizia, um: «e agora, como vais viver?»
Digo-vos, não me vou esquecer da resposta que obtive, foi tirada de dentro das entranhas, real, efectiva, amarga, mas ao mesmo tempo, verdadeiramente, poética: «e agora, perguntas tu... quando já não tiver o que comer, engolirei o meu último suspiro».

Jaime Bulhosa

terça-feira, abril 9

Amor à primeira vista




Foi amor à primeira vista. As formas arredondadas do corte, as cores vivas que o vestem, a marca distintiva de um exemplar único e a vontade incontrolável de o conhecer a fundo marcaram-me indelevelmente. Não é sempre que a paixão surge e, hoje em dia, é cada vez mais raro. Não importa que seja um pouco campestre ou juvenil, o que importa é que se transforme num amor ardente. Acaricie-o muitas vezes, fiquei muito tempo a olhar para ele, de tal maneira, que não me consegui controlar e tive que o possuir.
«Os Idílios Difíceis», de Italo Calvino, editado pela Arcádia em 1964, capa de Sebastião Rodrigues, é um daqueles livros que faz com que um livreiro, que gosta de livros, se amaldiçoe por ser livreiro. O suposto é um livreiro vender livros, não ficar com eles. Contudo, penso que me entendem... Não é belo este livro de contos? 

Jaime Bulhosa

quarta-feira, abril 3

Um Presidente benevolente





Um Grande Presidente de um pequeno país andava de cá para lá e da lá para cá, silencioso, taciturno, no seu palácio, tanto que não fazia mais do que gastar o erário público e o pavimento, à semelhança de D. Afonso VI. Até que um dia se lembrou de mandar chamar o seu Primeiro-Ministro para lhe dizer:
- O senhor não deve, não pode continuar a ignorar os clamores de reprovação que os meus súbditos... perdão, que os meus concidadãos soltam contra si. Consideram-no um grande e refinado patife.
- Creia, Excelência, que se trata de uma infame calúnia - respondeu o Primeiro-Ministro.
- Agrada-me muito ouvir essa afirmação - declarou o Grande Presidente.
Dito isto, levantou-se, para indicar que a audiência havia terminado. Mas vendo que o seu interlocutor se mantinha imóvel, como era seu costume, prosseguiu:
- Tem ainda alguma coisa a acrescentar?
- Sim, Excelência. Quero pedir a minha demissão; o clamor público é deveras falso, quando diz que sou um grande patife. Todavia, nada é grande ou pequeno senão através das comparações e conheço outros com quem eu e sua Excelência nos poderíamos comparar. Porém, deixemos isso. Mas o protesto não é injusto: eu na verdade e feitas as devidas comparações não passo de grande imbecil.
Aqui o Presidente consentiu em sorrir, para declarar, cheio de benevolência:
- Meu bom amigo, vá retomar as suas funções, nesse ponto, pareço-me muito consigo.


(Fábulas de Esopo emendadas)

terça-feira, abril 2

IV Encontro Livreiro




No próximo dia 7 de Abril, pelas 15 horas, a livraria Culsete, em Setúbal, recebe a IV edição do Encontro Livreiro.

O Encontro Livreiro é um espaço de debate e troca de ideias povoado por gentes do livro, de livreiros a editores, passando por escritores, revisores, tradutores e várias outras profissões directamente relacionadas com o universo do livro. É, sobretudo, um espaço povoado por leitores, condição transversal a quem trabalha no sector editorial e livreiro e a quem, não trabalhando, se reconhece na familiaridade que a partilha de livros e leituras oferece a quem neles se reconhece. (para mais informações aqui.)