quinta-feira, julho 25

Hoje na Pó dos livros

Hoje, às 18h00, na Pó dos livros, apresentação da obra "Como Folhas ao Vento", da autora Emília Daniel Leitão, edição Edita-Me

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quinta-feira, julho 18

Sá da Costa 100 anos


Livrarias fechadas: Portugal, Barateira, Camões, Guimarães, Diário de Notícias. Livrarias a fechar: Olisipo, Artes & Letras, Sá da Costa. Esta é a lista das livrarias que recentemente fecharam ou estão para fechar só na zona nobre da cidade de Lisboa. A Livraria Sá da Costa, dias depois de cumprir cem anos, vai fechar portas este Sábado, é irónico. Livrarias centenárias que de um momento para o outro deixaram de ser viáveis? Livrarias de encontro, de tertúlia, de cultura que já não fazem sentido? Livrarias onde o espaço era público, onde nos podíamos sentar gratuitamente a ler um livro, não têm agora qualquer relevância? Lugares de identidade que nos diferenciavam de outros lugares todos iguais, franchisados, estilizados, aqui, em Madrid ou em Paris, vão ser transformados em sapatarias ou padarias ao estilo francês? Livrarias que eram de todos nós ou não eram?
Alguma coisa estranha se passa nesta cidade ou melhor neste país. Um país onde cada vez menos se gosta de viver. Um país onde as políticas são feitas para o mercado e não para as pessoas. Um país onde a pobreza não nos deixa pensar noutra coisa a não ser como vamos viver no dia seguinte. Um país assim, naturalmente, não tem ânimo para a indignação, nem para a revolta. Um país assim está morto.


Jaime Bulhosa

sexta-feira, julho 5

Dedicatória

Que punição será para mim se os livros tradicionais se transformarem, como parece estar a acontecer, em bits informáticos. Não é só o objecto, o toque do papel, o cheiro que se perde, é também a memória. Os livros digitais são muito mais efémeros, impessoais que os livros em papel. Eles não se vêem, não terão estantes onde os guardar e perder-se-ão relíquias, recordações que os livros antigos trazem consigo, como é o exemplo desta deliciosa dedicatória encontrada num livro, de José Rodrigues Migués, «Uma Aventura Inquietante» (ou não?…) Transcrevo aqui a dedicatória para aqueles que não consigam decifrar a letra:

Lisboa 30/05/81

Cândida,

Não achas que seria mais belo e sobretudo mais lógico, juntarmos os corpos às almas?...

Manel

Jaime Bulhosa

quinta-feira, julho 4

Tragédia grega


Vivemos actualmente em Portugal uma tragédia grega. Ainda estou perplexo, de boca aberta, com tudo o que aconteceu esta semana. Tenho assistido e lido tudo o que é comentário político, mas não consigo entender, é demais para a cabeça de um cidadão comum. No entanto, sempre que assisto a mais um folhetim político não posso, talvez por defeito profissional, deixar de associar algumas das nossas principais figuras políticas a personagens célebres da literatura universal. Quase dá para montar uma peça de teatro. Vejam lá se não vos faz lembrar qualquer coisa:

1.ª - Personagem: Dom Quixote (Miguel de Cervantes)
Actor: Pedro Passos Coelho

Dom Quixote (Pedro Passos Coelho) depois de muitos anos perdidos na juventude, sem nada fazer a não ser ler velhos romances de cavalaria política, perdeu o juízo de vez. Dom Quixote de Massamá resolve, então, encarnar a personagem de cavaleiro andante. Parte em busca de aventuras, em nome do seu grande amor Dulcineia (Angela Merkel), para livrar o país dos seus malfeitores (os portugueses). Para isso arranja uma montada, o cavalo Rocinante (CDS) que por si só já estava cansado e sem vontade nenhuma de se associar à festa. Levando juntamente consigo o escudeiro Sancho Panza (Miguel Relvas) montado no seu burro (licenciatura), lutam destemidamente e obstinadamente contra moinhos de vento do Estado Social. Já todos sabem como acaba, não preciso de contar. 

2.ª - Personagem: O Alienista (Machado de Assis)
Actor: Vítor Gaspar

O estrangeirado e reconhecido aqui e além-mar, Dr. Simão Bacamarte (Vítor Gaspar), resolve voltar à sua terra natal para se dedicar a experiências científicas, usando cobaias humanas (os portugueses) para justificar as suas teorias. Assim, transforma a sua terra num gigantesco hospício. Devagarinho, vai colocando um a um todos os habitantes no manicómio e depois de todos lá estarem, resolve, ele próprio, enfiar-se lá dentro.

3.ª – Personagem: Dr. Jekyll and Mr. Hyde  (Robert Louis Stevenson)
Actor: Paulo Portas

Dr. Jekyll (Paulo Portas), elabora uma fórmula secreta e dá-lhe o nome de Sede-de-Poder. Não querendo pôr em perigo a vida de ninguém, ele próprio a bebe. Como resultado o seu lado demoníaco é revelado,  sofrendo de dupla personalidade um terrível e novo ser nasce dentro dele, um ser horrível, monstruoso a quem dá o nome de Mr. Hyde. Não conseguindo livrar-se deste ser diabólico, que o domina e transforma num assassino, frio, calculista e sem escrúpulos, Dr. Jekyll resolve por fim ao seu martírio, suicida-se matando assim Mr. Hyde.  

4.ª – Personagem: Mr. Bartebly (Herman Melville)
Actor: António José Seguro

Mr. Bartebly, (António José Seguro) o homem mais estranho que alguma vez alguém poderá conhecer. Um jovem e simples escrivão, tão esquisito que ninguém consegue descortinar o que ele pensa, sempre que lhe é pedido que execute as tarefas para as quais foi escolhido, responde: «eu preferiria não o fazer».

5.ª Personagem: O Eterno Marido (Dostoiéveski)
Actor: Cavaco Silva

O Eterno Marido (Cavaco Silva), não tem muito para contar. É aquele típico marido que tem sempre a testa enfeitada, balbucia umas coisas e é sempre o último a saber.

Jaime Bulhosa

segunda-feira, julho 1

Concílio do Amor




Peguei por acaso neste livro sobre o Céu, não, não estou a falar do livro «O Céu Existe Mesmo», que vendeu milhões de exemplares, o que até hoje não entendi porquê. Estou, isso sim, a falar do livro «O Concílio do Amor», de Oskar Panizza (1853-1921), Editorial Estampa (1974). não sei se este livro vendeu muito, mas duvido, tendo em conta que se trata de uma peça de teatro, mas também não interessa. É um livro que apesar da data de edição ainda se encontra disponível, quer dizer, ainda se encontra em algumas livrarias que tenham fundo editorial. A capa não é atraente, o autor pouco me dizia, mas o título chamou-me à atenção. Resolvi dar uma vista de olhos só para saber do que se tratava. Comecei pelo prefácio de André Breton o que me levou a lê-lo. Basicamente a cena desenrola-se no Céu, onde podemos encontrar seres etéreos, como querubins, anjos, Deus Pai, Jesus, Maria, sem faltar o Diabo. O livro é hilariante. Imaginem um Deus Pai, sob os traços de um ancião de idade bastante avançada, barba e cabelos brancos, olhos grandes, papudos e inexpressivos, cabeça curvada, espinha arqueada de cifótico. Envergando uma longa veste de um branco sujo, apoia-se nos ombros de dois querubins, tosse e limpa catarro da garganta, arrasta os pés e anda curvado para a frente. Um Jesus que não passa de um imbecil, mais não faz do que repetir, como um papagaio, tudo o que os outros dizem. Uma Maria fútil que não se importa com outra coisa a não ser com a sua imagem. Um diabo que acaba por ser, entre todas as personagens, o mais inteligente e complacente. O móbil da acção é o concílio que Deus Pai resolve realizar. Com o fim de punir os homens que em Nápoles, Itália (1495), praticam os mais ignóbeis pecados e vícios, onde mulheres, de seio nu, correm, lúbricas, pelas ruas e os homens se consomem em ardores de bode, chama o Diabo para engendrar um castigo que só este podia engendrar. Muitos dirão que este livro não passa de uma blasfémia ofensiva, sem interesse a não ser beliscar a fé. Pois, foi exactamente isso que aconteceu, na época, ao autor desta peça de teatro que teve de cumprir prisão por blasfémia à conta de se ter metido com os deuses. O livro contém também a defesa que Panizza fez no processo movido ao «Concílio do Amor» perante o tribunal Real de Munique em 30 de Abril de 1895.

Este livro não «prova» a existência do Céu como no livro supra citado, «O Céu Existe Mesmo», mas garanto que abrange mais verdade numa só linha do que o outro em toda a sua extensão. Claro, é a minha opinião.

Jaime Bulhosa