terça-feira, agosto 25

Não penses...



Leio porque posso. Leio porque sou livreiro. Leio porque me dá prazer. Leio porque me enriquece. Leio porque a leitura me ajuda a passar os momentos de solidão. Mas leio sobretudo porque busco um sentido para a vida: O que é o bem? O que é o mal? Quantas coisas belas encontrei nos livros, a arte, a música, a amizade, o amor… No entanto, em tudo o que li, na ciência, na religião, na metafísica, na literatura, nunca encontrei uma resposta satisfatória para as perguntas: O que sou? Para que vivo eu? Como o devo fazer? O que é o mundo? Ou seja, «a causa primeira». Aliás, cada vez que as sumidades o tentam fazer, parece-me tão intricado, complexo, confuso, misturado, que as respostas se tornam absurdas. Dá-me a sensação de que todos falam ao mesmo tempo, muitas vezes, apoiando-se e louvando-se reciprocamente para que em ricochete, também os apoiem e os louvem; outras vezes irritando-se tentam gritar mais alto do que os outros – tal como num manicómio. Penso muitas vezes para mim: se não podes compreender o sentido da vida, então não penses, vive.
É, por vezes, nas coisas mais simples – digo simples, não básicas, não são necessariamente sinónimos – onde podemos descobrir as melhores explicações para a vida. Foi precisamente dentro de um livro, a Confissão, de Lev Tolstói, que encontrei uma pequena parábola – pequenas fábulas que tanto aprecio –, com milhares de anos, do tempo ainda dos rolos do Pentateuco, e que me parece exemplar para a explicação de como é a vida. Infelizmente, também ela não explica «o porquê da vida», e tenho a ligeira suspeita de que, em toda a sabedoria humana, não a vou encontrar:

Era uma vez um viajante apanhado na estepe por uma fera enfurecida. Tentando salvar-se da fera, o viajante saltou para um poço seco, mas viu no fundo um dragão que abriu as goelas para o devorar. O desgraçado não se atrevia a saltar para o fundo do poço para ser devorado pelo dragão; então, agarrou-se aos ramos de um arbusto bravo que crescia nas fissuras do poço e ficou suspenso. As suas mãos estavam a fraquejar e sentia que em breve tinha de entregar-se à morte que o esperava dos dois lados; mas continuava a agarrar-se e, enquanto teve forças para isso, olhou em volta e viu que dois ratos, um branco e outro preto, andavam em redor do tronco do seu arbusto, roendo-o de todos os lados. A qualquer momento o arbusto ia quebrar-se e o viajante cairia nas goelas do dragão. O viajante via-o e sabia que a sua morte era iminente, mas, enquanto ainda pendia dos ramos, procurou à sua volta, encontrou nas folhas do arbusto gotas de mel, chegou a elas com a língua e pôs-se a lambê-las.

Jaime Bulhosa

segunda-feira, agosto 10

Sherlock Holmes


Se existe um local para uma boa conversa sobre a realidade e a ficção, esse local é uma livraria. Poderia ser noutro local qualquer, porque em qualquer lugar e qualquer um pode confundir a realidade com a ficção. – A repetição da palavra qualquer é feia, mas arranjem lá melhor sinónimo. – Trabalhei com um colega que tinha medo de fantasmas e que dizia que as personagens dos livros se materializavam e o assombravam durante a noite, quando se encontrava sozinho na livraria. Eu acreditava nele, até tínhamos uma testemunha, um velho livreiro, que podia confirmar a veracidade das minhas palavras. Sim, porque eu gosto de dizer apenas a verdade. Porém, infelizmente essa testemunha já morreu; mas quando lhe perguntávamos se acreditava em fantasmas das personagens dos livros, ele respondia-nos: «Sim, já vi tantos que deixei de acreditar neles.» Bem, deixemo-nos de rodeios e sigamos de imediato para o relato deste peculiar acontecimento sobre a confusão entre realidade e ficção, entre dois amigos, algures… – e digo apenas «algures», porque nestes casos manda o bom senso não ser demasiado concreto. Basta dizer que, algures na cidade de LX, dois amigos conversavam animadamente sobre livros e o acaso ou o jeito fez com que esta história se passasse numa livraria; porque assim tinha que acontecer, ou não fosse o narrador um livreiro.
O primeiro dos nossos amigos, um jovem rapaz universitário, franzino, nem muito alto nem muito baixo, apresenta em relação ao segundo um aspecto nitidamente mais intelectualizado, talvez pelo facto de usar óculos (acessório quase imprescindível para quem quer ter uma aparência de inteligência superior). O segundo amigo, um rapaz um pouco mais novo que o primeiro, não é magro, também não é gordo, mas aparenta sê-lo, porque sobressaem nele, em vez de uns respeitáveis óculos, umas visíveis bochechas rosadas, num fácies de mujique, digno de qualquer conto de Dostoiévski.
O rapaz de óculos tem a honra de abrir o diálogo:
- Eh pá, estava a pensar em escrever um livro. O que é que tu achas?
O rapaz de bochechas não se mostra surpreendido com a pergunta e comenta:
- Se hoje em dia toda a gente escreve, porque não tu.
- E que tal um livro sobre Sherlock Holmes? Eu adorava ver a série da Agatha Christie, na televisão, quando era puto.
O rapaz de bochechas, pouco seguro, observa, receoso perante os óculos do amigo:
- O Sherlock Holmes não é da Agatha Christie.
- Como assim? - Pergunta o rapaz de óculos, muito espantado.
- Quero eu dizer que o Sherlock Holmes é uma personagem de um escritor chamado Arthur Conan Doyle.
- Tens a certeza?
- Claro que tenho, eu oiço imensas vezes o Moita Flores a falar na televisão.
- Está bem… pode ser que até tenhas razão. Mas isso não é impeditivo de eu escrever um livro sobre ele.
- Claro que não. Mas que tipo de livro é que tu queres escrever sobre ele?
- Uma fotobiografia.
- Ouve! - Diz o rapaz de bochechas, já impaciente. – O Sherlock Holmes não é real. É uma personagem de ficção. Entendes?
- De ficção!?... Mas eu fartei-me de o ver na televisão…
Jaime bulhosa