terça-feira, setembro 29

Paradoxo

- Pai, o que é um Paradoxo?
- Diz-me uma coisa. Gostavas de viver muito tempo?
- Sim, claro que sim.
- E de ficar velho?
- Não!

Jaime Bulhosa

quarta-feira, setembro 23

Uma carta muito anotada, ou um imbróglio esclarecido


A má memória não é senão preguiça mental. Fazendo um pequeno esforço, todas as coisas podem ser recordadas, como se aprende do teor da presente carta.


Senhor José Ramírez.

Querido amigo: Lamento incomodar-te, mas estou a fazer o inventário da minha casa, para me mudar, e notei que me falta um livro que te emprestei. Não me recordo ao certo se era «Gustavo, o estroinas», de Vítor Hugo, ou «A Noiva do Herege», de Plutarco, mas, em suma, era um livro de tese. Agradecer-te-ei muito que mo remetas.

Desejando que te encontres bem de saúde, na companhia dos teu, abraça-te este teu amigo,

Afonso Leguizamo

T./c.: Avenida de Maio, 725 – 6.º andar

P.S. – Estimado José: Rogo que desculpes a minha má memória, mas no momento de fechar esta recordo-me de que o que te emprestei não foi um livro mas sim um globo terrestre, para que mostrasses à tua esposa que a Turquia asiática não ficava na Austrália, como ela dizia, baseando-se em que era professora diplomada. Espero que mo envies em carta registada o mais cedo possível.

Teu,

Ildefonso Leguia

T./c.: Avenida do Trabalho, 527 – 9.º andar

Nota importante: que cabeça a minha, senhor D. Josias Martinez! Dê por não escrito tudo que vai atrás e desculpe-me o tratamento por tu, visto mal ter a honra de conhecê-lo. O caso é que aquilo que tive o prazer de lhe emprestar foi um sobretudo de dupla face, na noite em que V. Senhoria veio a minha casa propor-me um desafio no campo de honra, como representante do doutor Sócrates Ângulo, porque, devido a uma distracção, arrastei a esposa dele uns vinte metros, agarrando-a pelo colar, na crença de que o fazia ao meu cão Tom.

Queira perdoar, cavalheiro, e mande-me o sobretudo porque faz falta agora que estão a apertar os calores.

S.S.S.

Afonso Leguizamón

S./c.: Avenida Marginal, 6 – 725.º andar

P.S. – Graças a Deus, tenho muito boa memória, pois de contrário não entenderias a minha carta. A verdade é que, quanto ao isqueiro, podes ficar com ele, pois a minha mulher ofereceu-me outro melhor e não como esse é, que não acende nunca. O que farás o grande favor de devolver-me é o pau de bandeira que te emprestei por ocasião da vinda cá do Príncipe de Gales ou do Getúlio Roosevelt, não estou agora bem recordado. Estas falhas de memória são devidas ao facto de andar muito preocupado com pensamentos relativos ao enlace que vou contrair com a que há-de ser a minha eterna companheira.

Não vivo na Avenida Roque Sánez Peña, como te dizia na minha anterior, mas na Avenida Quintana. O número sim que é o mesmo: 275, morada 6.

Teu amigo de sempre,

Afonso Leguizamón

Nota indispensável: Distinto senhor D. Jesualdo Ramos: Rogo-lhe que rasgue esta carta sem a ler, pois deslizaram-me nela algumas «gaffes» sem importância mas que poderiam criar desagradáveis mal-entendidos entre nós. As coisas passaram-se assim: Veio aqui o senhor pedir-me que lhe emprestasse trezentos «pesos», por motivo do falecimento de sua esposa, e vi-me na necessidade de recusar-lho pela simples razão de o senhor ser tão solteiro como eu. Por isso, se de facto o senhor pensou em restituir-mos no prazo estipulado, apresso-me a dizer-lhe que o não faça, porque estamos quites.

Saúda-o atentamente,

L. Alfonso

S./c.: Avenida das Constituintes, 572

P.S. – No momento de deitar esta carta na caixa reparo em que omiti um facto de certa importância, meu querido Pepe: os trezentos «pesos» eram só trinta, e emprestaste-mos tu quando a minha senhora teve um terçol. Se tos não restitui mais cedo foi porque me não recordei antes. Tão-pouco tos mando agora por razões que exigiam contos largos. Todavia, isto não empanará a nossa boa amizade e podes retê-los em teu poder até que isso te convenha.

Teu,

A. Leguina

T./c.: Avenida Alvear, 6 – aposento 275

P.S. – Caro Pedro: O que são as coisas da vida! Eu a reclamar-te o guarda-chuva, por culpa da minha má memória, e tu a dizeres: De que guarda-chuva se trata? Claro está que não se trata de guarda-chuva nenhum. Para mais, estava já muito velho e deixava passar água. Rogo-te que me desculpes e me devolvas a seringa de injecções que levaste na noite em que a senhora sua sogra teve aquele faniquito. Noutras circunstâncias não ta pediria, mas tenho uma éguazinha que, tenciono fazer correr em La Plata.

Teu amigo,

Aldonzo Leguineche

T./c.: Avenida, 9.º andar

P.S. – Agora reparo em que há aqui o que os ingleses chamam um «quiproquó». Bastarão duas palavras, senhor Jonas Ramalho, para pôr as coisas a claro. Não foi o senhor, precisamente, mas sim a um tal sr. Nepomuceno Barrenechea, a quem facilitei essa quantia na roleta de Mar del Plata, e tão-pouco foi a 16 de Fevereiro de 1932 mas sim em 15 de Janeiro de outro ano, creio que de 1937, data que tenho bem presente, por ser o dia em que completei quarenta anos de idade.

Como se trata de uma importância tão insignificante, creio que não verá inconveniente em restituir-ma, pois trata-se de uma recordação de família que muito estimo.

Saúda-o cordialmente o

Nepomuceno Barrenechea

S./c.: 725, 6.ª moradia andar 7.º

Nota: - Acabo de ler detidamente esta carta, estimado José, e verifico claramente, pelo que se esclarece no segundo e no quinto post-scriptum, que não é a ti que eu devo remetê-la pela simples razão de que o que me receitou a teriaga, vem a ser cunhado de um sr. Ramalho, também José por tal sinal, e, em consequência, está claro que foi o dito cavalheiro que levou o cão para lhe fazer companhia, por se lhe ter feito tarde e ele temer algum assalto no caminho. Se bem que eu não consiga compreender para que queria ele o cão tendo revólver e sendo uma dama tão distinta que só pela sua presença impõe respeito.

Contudo, mando-te a carta, e se não és tu que tens a maleta de couro de porco, agradecer-te-ei que me digas a quem a emprestei, para reclamar na volta do correio. Teu amigo constante,

Ildefonso Leguizamo

T./c.: Avenida Gral. Huergo


(Conrado Nalé Roxlo)

segunda-feira, setembro 21

O ego


O salão principal do Palácio Nacional foi preparado especialmente para o receber. Não havia ninguém que faltasse, naquela comunidade, que fosse realmente reconhecido como alguém. Escritores, poetas, matemáticos, políticos, cientistas e muitos mais, inclusivamente os mais altos representantes de todos os credos religiosos; e só não estava o rei porque de uma república se tratava. De resto, toda a gente estava presente para assistir ao acontecimento cultural mais importante do século: o lançamento da última obra-prima do mais ilustre e afamado escritor vivo.
O orador de serviço toma a palavra, o papel tremendo nas suas mãos, tal era a importância do momento, e inicia o discurso. De maneira a homenagear tão importante e distinta personalidade da cultura, não poupa nos elogios (eu diria mesmo «encómios», que, como toda a gente sabe, é o mesmo que «elogios», mas dito de uma forma mais erudita) e chega mesmo a adjectivar a obra com palavras que não constavam do dicionário da Academia. Às tantas, a meio do discurso, atreve-se a dizer:

- Temos hoje entre nós o melhor e maior escritor desde que Homero escreveu a Ilíada e a Odisseia.
- Cá está, eu sabia! - Pensa o escritor para com os botões da camisa. - Já começaram as restrições.

Nota: Esta pequena estória foi inspirada num conto originário do Médio Oriente.
--
Jaime Bulhosa

quinta-feira, setembro 17

Fazer opinião


O auto elogio arrepia-me, por outro lado, o sobejo de modéstia diminui-nos. A verdade é que a Pó dos livros é a livraria independente que mais seguidores tem no facebook. Já ultrapassamos os 50.000, para ser mais exacto 51.162. À primeira vista este facto não teria grande importância e parece uma futilidade. No entanto, 50.000 pessoas enchem um estádio de futebol. E segundo as estatísticas da página do facebook, por cada recensão de um livro, por nós colocada, cerca de 2500 pessoas, por todo o país, lêem-na. Desta forma, não entendo porque é que as editoras não têm um marketing dirigido para pequenos espaços. Dirigem-no apenas para as grandes superfícies. Claro, é óbvio, elas vendem muito, enquanto uma livraria independente vende muito pouco. Mas o que é que faz, de facto, vender um livro? O marketing? Sim, também. Mas não será o boca-a-boca mais convincente e duradouro de que qualquer campanha de marketing? Ainda para mais quando o público das livrarias independentes é constituído por leitores (no sentido tradicional), e não por consumidores de impulso de "produtos-literários". Ora, não serão exactamente os primeiros a fazer opinião? Fica a reflexão.

Jaime Bulhosa

O telefone toca


O Telefone toca:
Livreiro: Estou sim.
Cliente: Será que me pode ajudar. Eu estou à procura de um livro para a minha sobrinha. Ela tem seis anos e eu não tenho ideia nenhuma do que possa comprar.
Livreiro: Com certeza. Que tipo de livros ela costuma ler?
Cliente: Bem, a verdade é que não faço a mínima... Não a vejo muitas vezes. A minha irmã vive no estrangeiro e a menina só lê inglês.
Livreiro: Ok, qual é o nome dela?
Cliente: Sofia.
Livreiro: Ah, e que tal considerar a série do Dick King Smith, Sophie? Existe um título chamado Sophie’s Six.
Cliente: Ok, parece-me uma boa ideia.
Livreiro: Quer que verifique se o tenho em stock, tenho quase a certeza que sim.
Cliente: Não, não vale a pena. Vou encomendá-lo online.
Livreiro: Mas, mas… eu acabei de o recomendar.
Cliente: Eu sei e aprecio o que fez. É uma pena que a Amazon não tenha uma pessoa real a quem possa perguntar este tipo de coisas. Ainda bem que vos temos a vocês para nos aconselhar.
Livreiro: …!?