segunda-feira, agosto 22

Fácies

Assim de repente e olhando para o espelho, nunca serei um génio…
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Jaime Bulhosa

sexta-feira, agosto 19

O Poder de Deus



Dentro de um livro usado, com mais de quarenta anos, encontrei um bilhete autocarro cor-de-rosa no valor de 1 escudo, uma folha de prata, provavelmente, de embrulhar chocolate e ainda um papel liso amarelado pelo tempo, com uma pequena estória escrita à mão e a caneta tinta-permanente. O texto é muito simples, mas de grande alcance e ganha direito a ser reproduzido aqui:

«Um homem apercebeu-se com alegria de que entendia a linguagem das formigas.
Então, aproximou-se de uma formiga e pergunta-lhe:
- Voz tendes um Deus?
- Claro! – disse a formiga admirada com o teor da pergunta.
- Como é Ele? É parecido com uma formiga?
- A formiga vacila um pouco, mas acaba por responder – Não exactamente. Nós temos um ferrão. Ele tem dois».

quinta-feira, agosto 18

Literatura impossível

Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. E se pensarmos um bocadinho, isso depende, na maior parte das vezes, mais dos leitores do que dos próprios livros.
No entanto, quantas vezes não deixamos de lado certos livros, mesmo aqueles que o nosso círculo de amigos ou os críticos literários insistem em afirmar que se tratam de obras-primas e de leitura obrigatória, fazendo-nos sentir estúpidos ou, no mínimo, imbecis por não conseguirmos lê-los. Eu confesso: há livros dos quais não passei das primeiras páginas, por me parecerem demasiado densos, ocultos, eruditos ou apenas vazios de ideias. Mas a verdade é que os não consigo ler. Mesmo após várias tentativas.
Sejamos honestos, muita gente anda a escrever para si próprio ou para uma plateia restrita e minoritária. Como curiosidade, dou-vos dois exemplos: James Joyce confessou que levou um quarto do tempo da sua vida a escrever Finnegans Wake e acrescentou que levaríamos uma vida inteira para o ler (há inclusive quem diga que nem Matusalém, figura bíblica que terá vivido 969 anos, conseguiria cumprir o feito); também Robert Browning, poeta e dramaturgo inglês do século XIX, confessou que o seu livro Sordello apenas seria entendido por si próprio e por Deus. Vinte anos depois, admitiria que só mesmo por Deus.

Jaime Bulhosa

quarta-feira, agosto 17

Sou um livro de autor premiado


Papel de 80 gramas, traduzido, paginado e revisto sem pressas, com todas as regras que o melhor profissionalismo editorial exige. Foi assim que fui feito, depois de ter nascido da mão de um escritor, eu e mais 3000 irmãos gémeos verdadeiros. Deram-me uma capa. Infelizmente não é dura, como as que se dão aos clássicos, mas é condigna e tem uma foto tratada em photoshop, linda, como se usa agora. Assinado por um autor premiado e com boas críticas, tudo devidamente destacado numa cinta de cor garrida. Com um título sugestivo, estou sentado – ou melhor deitado, porque um livro sozinho não se consegue sentar, a menos que peguem nele –, como dizia, estou deitado numa mesa central da livraria, ao lado de outros romances, alguns tão novos quanto eu, à espera. Dizem, os mais velhos, que sou um sortudo, que a maior parte deles vai sozinho para as prateleiras de canto, enquanto esperam, coitados, de pé. Mas eu tenho tudo para que me vejam, toquem, cheirem, abram e, de um impulso, me levem.
Parecem passos, acho que vem aí alguém, não esperava que fosse tão rápido. Não consigo distinguir se é homem se é mulher, jovem ou mais velho. Disseram-me, em conversa com os outros, que a livros como eu costumam levá-los as mulheres maduras. Espero então que quem se aproxima seja uma mulher. Não vai ficar desapontada com o que tenho para lhe contar: o meu autor é, como já disse, premiado. Mas, para além disso, eu tenho tudo. Intensidade dramática, personagens bem construídas, uma narrativa fluida, ao mesmo tempo poética, bem escrita, original e um fim, esse então, completamente inesperado.
Sempre era uma mulher, mas não me levou, preferiu outro, um com uma flor na capa e corpos nus deitados. Não desespero, há-de aparecer alguém com mais bom gosto. Digo eu!...

Os meus pensamentos começam a ficar confusos, não sei se passou um dia, se passaram 15 dias ou meses. Seja como for, o tempo começa a esgotar-se. Senão aparecer ninguém rapidamente… Nem quero pensar nisso.
Finalmente, pegam em mim. Espera!... Eu conheço-o. É o livreiro que me pôs aqui, aquele que de vez em quando vem dar-me um jeito, virar-me com a cara para cima, porque me deixam desleixadamente de cara para baixo. Sejamos sinceros, quem é que gosta de estar de traseiro virado para os outros?
Mas, o quê...? Ele não veio para me virar para cima, porque assim já eu estou. Sei qual vai ser o meu destino. Já tinha ouvido rumores, contados com desprezo por aqueles que dizem ser de uma estirpe diferente, os livros de top. Todos achávamos que não passavam de rumores. Agora sei que é verdade, e está a acontecer comigo.
Fui levado numa caixa de cartão, juntamente com muitos outros indesejados da mesma editora, sem respeito, nem cuidados especiais, em monte, uns em cima dos outros, como se fossemos livros sem direitos e sem qualquer identidade. E agora é o fim, ingloriamente transformado em pasta de papel.

Eu tinha tudo, ouviram!?... Sou um livro de autor premiado!


Jaime Bulhosa