quinta-feira, setembro 14

Decrescendo





Há alguns meses a minha irmã disse-me que​ eu "tinha" que ler um romance não publicado, um livro escrito na língua de Shakespeare. Apesar de ser uma leitora ávida e bastante ecléctica não é frequente ver-lhe o entusiasmo com que me falou deste escritor, um Irlandês apaixonado por Lisboa... um homem sui generis.
Levei semanas a pegar no livro e nas primeiras linhas cheguei a pensar que a admiração pessoal poderia ter influído na reacção entusiástica da minha irmã mais velha.
Mas quando dei por mim estava a passar as páginas com uma sensação há muito perdida, a sensação de estar perante algo diferente, um raciocínio inovador, uma escrita "própria".
Gerry Brennan escreveu o seu romance "Decrescendo" com a profundidade de um conhecedor e grande amante da palavra escrita. Nele, um fluxo poético encantatório e uma sensibilidade subtil são frequentemente desmontados ou completados por um sarcasmo mordaz e inteligente; conseguindo manter uma narrativa coerente​ entre-cruzada com uma miríade de textos apenas aparentemente não interconectados.
Ao sermos confrontados  com os fantasmas da nossa cultura judaico-cristã revisitamos momentos chave da história, da política e da filosofia ocidentais do século XX em textos por vezes teatralizáveis plenos de humor. Aqui, a dor essencial da nossa mortalidade é-nos devolvida num jogo de espelhos e surpreendemo-nos emocionados ao ser tocados pela sensibilidade delicada de quem nasceu poeta.
Como um vinho precioso, este livro quando o saboreei lentamente depois de o deixar respirar revelou-se singular.
Soube agora que "Decrescendo" se publica em Nova Yorque pela editora Pski's Porch  e espero que brevemente possamos lê-lo numa tradução que lhe faça justiça na língua de Camões.

Jaime Bulhosa